quinta-feira, 1 de maio de 2008

SOMOS TODOS EGOCÊNTRICOS


Esqueça seus preconceitos: a ciência já sabe que há um lado bom no comportamento egoísta. Se não fosse ele, muito provavelmente não gostaríamos de mais ninguém


Ada Brunstein

Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Galileu de maio/2008.


Você é narcisista ou egotista? (Não confunda egoísta com egotista, "quem tem sentimento exagerado do seu eu", segundo o "Aurélio", o famoso "eu me amo") Se for um dos dois, provavelmente está achando que esta matéria é sobre você. Se não, preste atenção do mesmo jeito: você pode descobrir que vem iludindo a si mesmo. Vários experimentos psicológicos estão revelando como todos somos incrivelmente egocêntricos.
Vejamos um estudo concebido para diagnosticar como decidimos se alguém é digno de confiança. Lisa DeBruine, da Universidade de Aberdeen (Reino Unido), conseguiu voluntários para participar de um jogo online no qual tinham de decidir se confiavam ou não em outro participante com quem deveriam dividir uma determinada quantia em dinheiro. Tudo o que tinham para tomar a decisão era uma foto.
Os voluntários receberam imagens de estudantes de outra universidade e também viram fotos que DeBruine havia manipulado eletronicamente para incorporar características dos rostos dos próprios voluntários. As manipulações eram sutis o bastante para que eles não as percebessem, mas, mesmo assim, o resultado foi impressionante. Não há dúvida: os voluntários confiaram muito mais nos rostos que pareciam com os seus. Se tal constatação não lhe faz pensar em amor próprio, considere o seguinte: outro estudo descobriu que a maioria das pessoas fica atraída sexualmente por imagens delas mesmas modificadas como alguém do sexo oposto.


quarta-feira, 30 de abril de 2008

APENAS CINCO SEGUNDOS


Cinco segundos. Talvez menos que isto. Foi o tempo que levei para viver uma experiência que, de tão negativa e desastrosa custou-me vários dias de reflexão e arrependimento. Dessas idiotices que fazemos por nos perceber mais espertos que a média, mais rápidos ou mais estrategistas que os tristemente definidos como medianos, outros, comuns.

Na realidade, seria apenas uma pequena manobra, em um trânsito fácil, lento, próximo ao de uma cidadela do interior. O carro dirigido por mim tinha força suficiente para executá-la a contento, antes mesmo de oferecer qualquer perigo. Foi o que pensei, ao consultar o espelho retrovisor, sem atentar para o veículo que já entrava atrás do meu, no sentido transversal.

Uma batida forte, rápida e, graças à Providência Divina, sem nenhum dano à integridade dos motoristas envolvidos. No outro carro, uma mulher aflita, atônita, desesperada por outros graves motivos, aos quais viria a agregar-se esse novo, por mim criado. Estava em diligência assustada, angustiada pelo filho que se achava atrás das grades. Com o marido trabalhando em outro Estado e a filha estudando naquele período da manhã, a jovem senhora encontrava-se sozinha para funcionar ao mesmo tempo como chefe de família, dona de casa, assistente de defesa, motorista e ainda fazer vezes de estagiária de advocacia.

- Moço, me ajude, por favor!- disse aterrorizada. - Não me abandone aqui! Não vá embora! Eu fiz tudo certinho. Esperei o senhor passar. Juro que não foi culpa minha! Lágrimas caudalosas jorravam de seus olhos, enquanto produzia frases entrecortadas pelas golfadas de ar que buscavam o seu peito.Pedi perdão, reconheci meu erro, assumi a responsabilidade pelo acidente. Queria, sabe Deus o quanto, nunca estar vivendo aquela situação, aquele momento estanque, aqueles lapsos aflitivos de um acidente causado por minha imprudência.

Tirei-a do carro, liguei para a polícia e solicitei entre os curiosos ao redor, alguém que providenciasse um pouco de água para a mulher agitada.Depois de tudo resolvido, já mais calma e confiante, ela me explicou um pouco de seu sofrimento e da impossibilidade de estar parada ali naquele momento, com tantas providências para tomar. Compreendeu com a minha explicação que nenhum de nós gostaria de viver aquilo, embora fosse uma contingência possível aos que dirigem, aos que vivem. Viver sem sobressaltos eventuais só é possível àqueles que não se movem, que mal respiram, que não saem nunca do mesmo lugar.

Há que se ter mais cuidado, mais prudência. Um segundo olhar mais atento pode prevenir uma tragédia. Uma segunda reflexão pode evitar uma precipitação apaixonada e infeliz. O outro lado da face agredida, ao ser oferecido pela vítima, conforme o ensino de Cristo nos dará tempo para pensar antes de agir, antes de gerar um desfecho pior que o agravo recebido.

Cinco segundos. Quiçá, menos que cinco. Mas, tempo suficiente para alterar todo aquele dia, toda aquela semana e, ainda hoje, vários dias depois, me fazer pensar que tudo poderia ser evitado, se tão somente eu o tivesse gasto no essencial: pensar antes de agir.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Entrega de trabalho transferido

Colegas - PSI/Vespertino

Como solicitado pela turma, o material da disciplina ATC_O - Profa. Rosie pode ser entregue dia 08/05 - quinta-feira próxima.

Bom estudo a todos,

Abraços.

Léia

reflexão

"Temos observado um comportamento que advém da falta de compreensão, da falta de entendimento, ou do entendimento parcial do que nós temos apregoado aqui. As dúvidas, ou o conhecimento parcial, advém do fato de cada um fixar somente aquilo que lhe interessa.

Vamos imaginar que a televisão esteja ligada e que estejam assistindo a um programa um engenheiro, um médico, uma dona de casa e um filósofo, alguém que goste de filosofia. Vamos ver, então, o comportamento dessas pessoas.

É uma palestra. Na hora em que o palestrista estiver falando sobre a parte médica, o médico vai abrir os ouvidos para aquilo. Na hora que estiver falando sobre culinária, o médico não vai reter aquele conhecimento, porque ele não sente necessidade, uma vez que aquilo está fora do limite da sua ação. Mas a dona-de-casa vai prestar atenção! E o engenheiro na sua parte. E o filósofo, ou aquele que gosta do assunto, vai se deter na parte da mente, e assim por diante. Cada um vai se deter, vai parar no seu ponto de interesse, na sua necessidade.

No entanto, um conjunto foi transmitido.

Se todos agissem de acordo com as necessidades não só dele, mas de acordo com as necessidades também dos outros, se agissem com a compreensão que de cada ato seu vai derivar harmonia ou desarmonia para os outros, então a palestra seria ouvida no todo e o comportamento seria de acordo: haveria harmonia.

Porém, quando se ouve, o conhecimento é sempre parcial, parcial segundo as necessidades das pessoas.

(...) Ninguém pode ser harmônico, se não analisou os conhecimentos e, especialmente, o conhecimento dentro dele. Portanto, sem uma análise interna, ninguém pode construir nada melhor.

É necessário condição, e a condição adquire-se por análise. Senão, vai continuar igual - daí o conhecimento parcial.

Portanto, ao se deter num conhecimento, atente-se segundo a necessidade de todos, porque isso é integração. E aí nasce o Respeito."

Dr. Celso Charuri
26 de fevereiro de 1981

O poder da reza

12/2/2006
por Contardo Calligaris *

Mistério: estudo mostra que uma reza retroativa ajudou pacientes anos depois da internação

-UM AMIGO médico, Décio Mion, me fez conhecer um estranho debate que ocupou, de 2001 a 2003, as páginas do seríssimo "British Medical Journal".Premissa: várias pesquisas, há tempos, mostram os efeitos positivos da reza numa variedade de condições patológicas. Documenta-se que o doente encontra benefícios (quanto ao andamento de sua enfermidade) no ato de rezar ou na consciência de que seus próximos rezam por ele. Até aqui, tudo bem: o paciente acharia assim uma paz de espírito que melhora sua evolução. A coisa se complica: às vezes, as pesquisas mostram que a prece traz benefícios mesmo quando alguém reza por um doente sem que ele próprio saiba disso. Como explicar esses casos? Talvez o benefício seja fruto de uma intervenção caridosa da divindade solicitada, mas essa explicação depende de um ato de fé que não cabe na interpretação de uma pesquisa científica. Além disso, é curioso que os benefícios apareçam seja qual for o deus ou o intercessor que receba a oração. Resta, pois, imaginar que a intenção humana (o esforço cerebral de quem deseja que algo aconteça e reza por isso) tenha alguma realidade material (energia, partículas etc.) capaz de influir no andamento de um processo patológico. Estranho? Nem tanto: afinal, até poucas décadas atrás, ignorávamos a existência de uma série de partículas que, segundo a física de hoje, povoam nosso universo. Por que as nossas intenções não movimentariam uma energia desconhecida, mas capaz de alterar o mundo físico? Nos EUA, nos anos 60-70, foram organizadas reuniões diante da Casa Branca com a idéia de que, se todos se concentrassem, a energia do dissenso faria levitar a residência do presidente americano. Embora cético, participei, convencido por um amigo que dizia: "Tentar não dói". Claro, não funcionou. Ora, no fim de 2001, o "British Medical Journal", depois de um editorial lembrando que a razão não explica tudo, publicou uma pesquisa, de L. Leibovici (BMJ, 2001, 323), que registra os efeitos benéficos (em pacientes com septicemia) de uma reza afastada não só no espaço, mas também no tempo. Explico. Foram incluídos no estudo todos os pacientes internados com septicemia, de 1990 a 1996, num hospital israelense; eram 3393. Em 2000 (de quatro a dez anos mais tarde), por um processo rigorosamente aleatório, os arquivos desses pacientes foram divididos em dois grupos: um grupo pelo qual haveria reza e um grupo de controle. Para cada nome do primeiro grupo, foi dita uma breve reza que pedia a recuperação do paciente e do grupo inteiro. Resultado: no grupo que recebeu uma reza em 2000, a mortalidade foi (ou melhor, fora, de 90 a 96) inferior, embora de maneira pouco significativa; no mesmo grupo, a duração da febre e da hospitalização fora (ou melhor, havia sido, de 90 a 96) significativamente menor. A publicação da pesquisa provocou uma enxurrada de cartas (BMJ, 2002, 324), algumas contestando as estatísticas, outras manifestando uma certa incompreensão do problema, que é o seguinte: como entender que uma reza possa agir não só sem que o paciente tenha consciência da intercessão pedida (com possível efeito psicológico positivo), mas à distância no tempo? Como entender, em suma, que uma reza dita em 2000 tenha um efeito retroativo em alguém que estava doente entre 90 e 96, quando a pesquisa e a reza nem sequer estavam sendo cogitadas? Uma tentativa de resposta veio em 2003. O "BMJ" (2003, 327) publicou um interessante e enigmático artigo de Olshansky e Dossey, "History and Mystery" (história e mistério), em que os dois médicos dão prova de conhecimentos de física quântica muito acima de minha cabeça. O argumento de fundo é o seguinte: há modelos do espaço-tempo nos quais é possível que haja relações físicas entre o passado e o presente (ou seja, modelos em que o presente pode alterar o passado). Que o leitor não me peça para explicar como isso aconteceria. As dimensões do "espaço de Calabi-Yan" e os "campos bosônicos", para mim, são tão obscuros quanto os ectoplasmas, os espíritos e os milagres. Moral da história: embaixo do sol (ou da chuva), deve haver muito mais do que imaginamos, até porque nossa ciência está longe de ser acabada. Alguns colegas positivistas talvez durmam mal com esse barulho. Eu não acredito nas paranormalidades, mas, em geral, durmo melhor ninado pelo mistério do que pelas certezas.

FONTE: http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=1118

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A CHUVA

Nossa colega Monique ontem, trancou sua mão, na porta do carro. Tudo por causa de seu "guarda-chuva". Ela não sofreu ferimentos graves. Mas a cena, alguém viu?

Atlas de anatomia Sobotta (PDF) BAIXAR

Como eu sei que é um pouco caro esse atlas, procurei na internet e achei para vocês baixarem, segue abaixo o link:

http://www.4shared.com/file/21833717/8ede6b88/Atlas_de_anatomia_Sobotta.html?s=1

BOM PARA A PROVA!!!!

Para McEwan e Pinker, o significado das palavras vale bilhões

da Folha de S.Paulo

Duas das mais destacadas figuras em suas áreas, o escritor inglês Ian McEwan e o psicólogo evolucionista Steven Pinker se encontraram em 2007 para debater aquilo de que mais entendem, embora de pontos de vista diferentes: a linguagem.
Aclamado por obras como "Amsterdam" (Booker Prize de 1998), o recente "Na Praia" e a obra -prima "Reparação" --inspiradora do filme "Desejo e Reparação", que concorreu ao Oscar deste ano--, McEwan é o mais importante escritor inglês em atividade.
Já Pinker, professor na Universidade Harvard (EUA), é um grande estudioso das origens e dos mecanismos da linguagem, além de divulgador do tema em livros como "O Instinto da Linguagem".
A conversa inusitada, que o Mais! reproduz a seguir, ocorreu no Festival de Literatura de Cheltenham (Reino Unido) e foi publicada originalmente no último número da revista "Areté".

E a imprensa...

Bom, só quero fazer um pequeno comentário sobre o que reparei ontem, assistindo ao Fantástico, e que complementa o post da Gabi, do Calligaris.
Estavam falando do caso Isabella, o que todos os outros jornais, de todos os outros canais também só sabem falar.
Na reportagem, o repórter, que não me lembro ao certo o nome, fazia a matéria sobre as pessoas que iam até a frente do prédio do pai de Alexandre ou do próprio Alexandre e que não estavam lá por solidariedade, emoção, ódio ou qualquer desses sentimentos. Estavam lá para benefício próprio, uns fazendo panfletagem, outro para dizer para a imprensa que também tinha um problema muito grande e que precisava de ajuda, tinha quem vendesse sorvete, água, ....
Bom, concordo que tudo isso seja uma falta de consideração e concordo com o que disseram na matéria, o que não pude deixar de reparar é que o Fantástico estava "julgando" quem estava ali na frente para beneficio próprio, para se "dar bem" com o acontecido e me passou pela cabeça, "e o que que os repórteres estão fazendo ali na frente?" solidariedade também não é. Estão ali também para benefício próprio, também para se "dar bem" pois conseguiram uma matéria "espetacular" que está dando o que falar.
Como, então, um jornal pode julgar quem está lá para trabalhar e ganhar alguma coisa com isso se o próprio jornal também o está fazendo.
Acho que é falta de olhar para o próprio umbigo.
É isso então, só queria compartilhar um pensamento.
beijos
PS. estou adorando o blog

sábado, 26 de abril de 2008

Tênis x Frescobol

Por Rubem Alves
Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: "Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: "Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?" Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar."
Sherazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo, eu te amo..." Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, "eu te amo" não quer dizer mais nada." É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma."
O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...
A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis: "Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: "Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo" A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: "Tens razão, minha querida". A situação está salva e o ódio vai aumentando." Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...
(O retorno e terno, p. 51.)

NIETZSCHE por trás da máscara de DON JUAN DE MARCO

Cinema imaginário

Simone Koff Barbosa*


Através da estória de Don Juan de Marco,estabeleceremos um duelo entre o mundo das idéias de Platão e a complexidade do universo de Nietzsche, adotando como ponto de partida a análise de alguns aforismas da obra de Nietzsche ¹.
Na primeira parte da obra, mais especificamente no capítulo ‘Dos Preconceitos dos Filósofos’, Nietzsche questiona os valores e suas origens, além de criticar os filósofos que crêem em determinados valores pré-concebidos como verdadeiros e absolutos, o que para ele pode soar perigoso. Para Nietzsche, o filósofo deve saber ousar, renunciando valores habituais e não aceitando de forma pacífica estes valores:
A necessidade de saber a verdade ainda há de nos arrastar para muitas aventuras, essa célebre veracidade de que todos os filósofos falam até os dias de hoje com veneração. Afinal, quem vem aqui enterrogar-nos? Qual de nós mesmos tende para verdade? Por que haveríamos de preferir a não verdade? Talvez, a inceteza? Quem sabe, a ignorância?... Pode algo nascer do seu contrário? Por exemplo, a verdade do erro? A ação altruísta do egoísmo? A crença nas oposições de valores é a fé fundamental dos metafísicos.²
Se analisarmos estes aforismas e relacionarmos com o personagem do filme Don Juan de Marco, podemos dizer que o personagem vive no mundo metafísico, que é ilusório, passional e baseado nas oposições de valores. Podemos dizer ao mesmo tempo que Don Juan é um personagem ousado, pois criou seu próprio mundo, um mundo imaginário que não faz parte dos valores habituais.
A verdade do personagem é completamente ilusória, provavelmente para ocultar problemas do
passado e fugir para um mundo, que mesmo ‘irreal’, trazia a possibilidade de alcançar a suposta
‘felicidade’. Por outro lado, sob os olhos de Nietzsche essa ousadia seria no mínimo contraditória e Don Juan provavelmente seria um covarde, pois para o filósofo não existem os valores de bem e mal, de felicidade e infelicidade, já que estes eram preconceitos típicos dos metafísicos como Platão, que acreditavam num mundo efêmero, enganador e ilusório. “O pensamento platônico, que era um pensamento aristocrático, residia principalmente na resistência ao sensualismo”.³
Para o filósofo, não deveria haver o ‘pré-conceito’ contra o sensualiasmo, pois o sexo também era
fundamental para conservação da espécie. No filme, o sensualismo é mostrado em diversas cenas através do mundo fantasioso, criado pelo personagem. Logo no começo do filme, o sexo é mostrado como pecaminoso, através da descrição da cena do personagem Don Juan, católico fervoroso que aos 10 anos de idade observava escondido sua professora trocando de roupa. Para Nietzsche o ‘pecado’ soa como algo igualmente mascarado e falso, já que é um valor pré-concebido, baseado em oposições como ‘céu x inferno’, ‘o bom x o pecador’, todas crenças metafísicas.
A questão do livre-arbítrio é abordada da seguinte forma:
É essencialmente afeto de superioridade em relação àquele que se deve obedecer. Eu sou livre, ele deve obedecer. Livre–arbítrio é essa expressão própria daquele que quer e comanda, que goza enquanto tal triunfo obtido sobre os obstáculos, mas que imagina que a vontade é quem no fundo triunfa dos obstáculos.4
Sob este prisma, podemos dizer que para Nietzsche não existe a idéia de total livre-arbítrio a
partir do momento em que existe relação de dominação. Por sua vez, o rebelde Don Juan não
quer admitir esta relação de dominação e prefere continuar vivendo no mundo ilusório e irreal. No filme, o personagem percebe que a única maneira de conquistar a suposta liberdade desta instituição é contando uma estória banal de que ele não passa de uma pessoa carente que estava passando por um momento de desespero. Aqui também existea idéia de manipulação do personagem que precisou ficar amigo do próprio psiquiatra para conseguir a suposta liberdade. Este fato vem a questionar até que ponto determinadas instituições têm o poder de decidir questões tão importantes na vida das pessoas.
Nos julgamentos, há sempre a figura de um culpado e de um injustiçado. Este fato estabelece um
confronto com as idéias de Nietzsche, já que as instituições assumem o papel de ‘Deus que decide’, o que para o filósofo é algo inaceitável. Em determinada cena do filme, Don Juan fala ao
psiquiatra Dr. Micker: “Somente através do meu mundo você consegue respirar. Você é um grande amante como eu, embora tenha perdido o caminho e o sotaque”. Neste caso, o psiquiatra começa a viver dentro do mundo imaginário do personagem, ou seja, ele precisava da fantasia do paciente para alcançar a própria felicidade. Sob este prisma, podemos dizer que houve uma inversão dos papéis. Aqui, como diria Nietzsche, talvez o psiquiatra do filme não tenha conseguido lutar contra as próprias resistências racionais e deixou que o seu coração comandasse a situação.
Complementando esta idéia: Por si só a juventude é algo que engana e
falseia. Autocastiga-se pela desconfiança para com seus próprios sentimentos, neste período de transição. Martiriza-se pelo entusiasmo e a dúvida. A consciência limpa até aparece já como perigo, auto-encobrimento e fadiga da honestidade mais pura.5
No contexto do filme, o psiquiatra parece ter que reviver uma juventude tardia e tenta resgatar a felicidade no seu casamento, ou seja, está em busca do tempo perdido, o que muito provavelmente para Nietzsche soaria como enganação. “A independência é algo para poucos - é prerrogativa dos fortes, não só forte, mas audacioso até a temeridade”.6
Para Nietzsche ficar a sós ou no isolamento pode significar crescer no próprio autoconflito.
Neste sentido, será que Don Juan não era um fraco? Sob os olhos de Nietzsche com certeza
era, já que ele vivia em um mundo idealizado e metafísico e não era capaz de vencer os obstáculos sozinho. “Quanto mais abstrata for a verdade que pretendes ensinar, maior será a arte em seduzir os sentimentos a favor de tal verdade”.7
Don Juan era um grande mentiroso que acreditava tanto na própria mentira que suas estórias imaginárias passaram a ser uma verdade para ele. Nietzsche, ao contrário, nega este mundo idealizado e diz que em toda criação existe uma interpretação distorcida dos fatos que mascara a verdade. Ainda dentro desta analogia com o universo platônico há outro diálogo no filme que
aborda esta questão, no qual Don Juan reflete:
Para não enlouquecer tornei-me metafísico, considerei o significado da verdade, da existência, de Deus. Na vida existem quatro questões de valor: O que é sagrado? De que é feito o espírito? Por que vale a pena viver? Por que vale a pena morrer? A resposta é uma só: por amor.Ou seja, o personagem revela que o sentimento , a idealização, as crenças e principalmente o amor são as razões que justificam a vida e a existência.
Podemos analisar aqui Nietzsche sob outro ângulo, quando menciona: “Aquilo que é feito por amor faz-se sempre para além do bem e do mal”.8
Acredito que Nietzsche aborda de uma maneira complexa e profunda a questão do ’bem‘ e do ‘mal’, pois de certa forma não considera estes valores que são opostos. Ao mesmo tempo, segundo ele, o amor ultrapassa as fronteiras de valores e talvez o que ele queira dizer é que este sentimento transcende a todo tipo de explicação lógica, ou seja, a tudo que possamos explicar ou entender, as pessoas apenas sentem. Se Nietzsche reconhece o amor e reconhece que ele ultrapassa todo e qualquer valor préconcebido, este sentimento também está inserido no contexto da fantasia, do sonho, do imaginário de cada um que consiste na metafísica platônica. Nietzsche, neste aforisma se aproxima muito do universo platônico, embora acredito que muito provavelmete, nunca iria admitir esta idéia. No contexto do filme podemos interpretar ainda que na medida em que o personagem se auto-supera, acreditando na própria mentira ele também se autodestrói, pois no filme ele fica perto de cometer o suicídio. Ainda podemos interpretar que quando as pessoas amam, muitas vezes não vêem os limites do bem e do mal, do certo e do errado e são capazes de fazer qualquer coisa para despertarem ou serem
despertadas por esse sentimento. O personagem de Dom Juan muito provavelmente era uma pessoa triste que não tinha encontrado o seu amor, entretanto era um eterno ‘sonhador’, alguém que queria muito ser amado e então encorporava a fantasia de ser um grande amante e um grande sedutor. Um dos aforismas mais interessantes e complexos reza que:
“Em última instância amam-se os nossos desejos e não o objeto desses desejos”.9
Talvez o que Nietzsche queira dizer é que as pessoas na verdade se auto-enganam, amam o sentimento da paixão que as faz sentir mais leves, românticas e poderosas por dominarem e sentirem-se dominadas, e que muitas vezes são capazes de amar mais esse desejo da suposta vaidade e felicidade do que da própria pessoa envolvida, o que deixa de ser um pensamento egoísta. O filósofo deixa nas entrelinhas que as pessoas se apaixonam pela ‘arte de seduzir’, sendo que o objeto do desejo pode ficar em segundo plano. A já mencionada máscara preta que Don Juan usava em torno dos olhos acredito que seja uma forma de auto-defesa na qual o personagem diz usar para defender a suposta ‘honra do pai’, como se ele não quisesse ser descoberto para não ter que enfrentar as dificuldades do mundo real. O personagem mostra ao psiquiatra o ‘mundo encantado’ da bondade, do amor ao próximo, o que não deixa de ser astuto, como diria Nietzsche, pois ele esconde todos os sentimentos de raiva, perdas afetivas, traição e baixa auto-estima.
Para o filósofo, os sentimentos de amor e ódio estão muito próximos, talvez porque a interpretação sobre as situações que vivemos sejam sempre distorcida e falsa porque não existe uma verdade absoluta. Neste sentido, estes valores de bem mal se aproximam, se confundem e até se manulam porque de certa maneira, para Nietzsche, perdem o sentido. Para o filósofo, talvez Don Juan ainda represente as figuras de Deus e do Diabo simultaneamente através de uma metafísica que acreditava e não acreditava ao mesmo tempo. “O perigo da felicidade: agora tudo está bem para mim, agora amo qualquer destino. Quem está disposto a ser meu destino?”.¹0
Este questionamento nos leva a refletir que o conceito da felicidade pode ser realmente utópico,
pois muitas pessoas pensam que seriam mais felizes se fosssem outras pessoas, ou se estivessem no lugar de outras e até mesmo se vivessem sob a máscara de um personagem como é o caso de Don Juan. Mesmo assim, não há garantias de que se trocássemos nossos destinos seríamos mais felizes. Para Nietzsche não há garantias sobre o futuro e muito menos a suposta receita da ‘felicidade’. Diante deste fato, quem gostaria de ter o destino de outra pessoa sabendo que ele está sujeito a mudanças completamente imprevisíveis? Talvez o que Nietzsche queira dizer é que devemos amar o nosso próprio destino no que depender da nossa própria vontade e capacidade, pois o futuro é incerto, sem respostas. Nietzsche se aproxima de Platão sob alguns aspectos, mas difere em outros. Podemos dizer que o filósofo descreve a profundidade na superfície porque para ele não existe separação entre corpo e alma, existe uma análise, há uma superação de bem e de mal, do verdadeiro e do falso. Nietzsche tinha idéias parecidas com Platão em relação à política, ambos defendem a política elitista que oprime o povo sofredor. Sob outro prisma, o cristianismo - moralista platônico vai contra o niilismo de Nietzsche.
Talvez Nietzsche tenha sido suficientemente astuto para desmascarar o idealismo platônico que, retirando sua última máscara pode-se dizer que Platão se considerava um Deus. Se retirarmos a última máscara de Nietzsche é possível que não haja uma única conclusão absoluta, mas através de seu olhos temos a oportunidade de pensar sobre a vida através de um perspectivismo eniquecedor, intrigante e desafiador. Nietzsche foi um filósofo revolucionário, que contribuiu muito para o questionamento do comportamento e da alma humana. Vivemos hoje no mundo do efêmero, do pós-moderno e da substituição. Nietzsche porém, permanece vivo e atual na cultura do ‘volúvel’ por ser suficientemente profundo diante da superficialidade do mundo em que vivemos.

NOTAS
* Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social/PUCRS. Publicitária com Especialização em
Design na School of Visual Arts SVA (Nova Iorque/ Estados
Unidos).
1 Nietzsche, F. Além do Bem e do Mal: Prelúdio para
uma filosofia do futuro. São Paulo. Cia. Das Letras. 1996.
2 Nietzsche. F. op. cit. § 1 e 2.
3 Nietzsche. F. op cit. § 14.
4 Nietzsche. F. op. cit. § 19.
5 Nietzsche. F. op. Cit. § 31.
6 Nietzsche. F. op. Cit. § 29.
7 Nietzsche. F. op. Cit § 129.
8 Nietzsche. F. op. Cit § 153.
9 Nietzsche. F. op. Cit § 175.
10 Nietzsche. F. op. Cit § 103.

REFERÊNCIAS: NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal – prelúdio para uma filosofia do futuro. São Paulo. Companhia das Letras. 1996.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Homenagem para minha amiga GABI

"Gastarei minha vida explorando o mais deslumbrante e complexo dos mundos, a mente humana. Serei um garimpeiro, procurando ouro nos escombros das pessoas que sofrem." (Augusto Cury)