sexta-feira, 18 de julho de 2008

Amores silenciosos - Contardo Calligaris

26 de Junho de 2008

A gente se declara apaixonado porque está apaixonado ou pelo prazer de se apaixonar? CONTARDO CALLIGARIS na Folha

FAZER E RECEBER declarações de amor é quase sempre prazeroso. O mesmo vale, aliás, para todos os sentimentos: mesmo quando dizemos a alguém, olho no olho, "Eu te odeio", o medo da brutalidade de nossas palavras não exclui uma forma selvagem de prazer.
De fato, há um prazer na própria intensidade dos sentimentos; por isso, desconfio um pouco das palavras com as quais os manifestamos. Tomando o exemplo do amor, nunca sei se a gente se declara apaixonado porque, de fato, ama ou, então, diz que está apaixonado pelo prazer de se apaixonar.
Simplificando, há duas grandes categorias de expressões: constatativas e performativas.Se digo "Está chovendo", a frase pode ser verdadeira se estamos num dia de chuva ou falsa se faz sol; de qualquer forma, mentindo ou não, é uma frase que descreve, constata um fato que não depende dela.
Se digo "Eu declaro a guerra", minha declaração será legítima se eu for imperador ou será um capricho da imaginação se eu for simples cidadão; de qualquer forma, capricho ou não, é uma frase que não constata, mas produz (ou quer produzir) um fato. Se eu tiver a autoridade necessária, a guerra estará declarada porque eu disse que declarei a guerra. Minha "performance" discursiva é o próprio acontecimento do qual se trata (a declaração de guerra).Pois bem, nunca sei se as declarações de amor são constatativas ("Digo que amo porque constato que amo") ou performativas ("Acabo amando à força de dizer que amo"). E isso se aplica à maioria dos sentimentos.
Recentemente, uma jovem, por quem tenho estima e carinho, confiava-me sua dor pela separação que ela estava vivendo. Ao escutá-la, eu pensava que expressar seus sentimentos devia ser, para ela, um alívio, mas que, de uma certa forma, seria melhor se ela não falasse. Por quê?
Justamente, era como se a falta do namorado (de quem ela tinha se separado por várias e boas razões), a sensação de perda etc. fossem intensificadas por suas palavras, e talvez mais que intensificadas: produzidas.
É uma experiência comum: externamos nossos sentimentos para vivê-los mais intensamente -para encontrar as lágrimas que, sem isso, não jorrariam ou a alegria que talvez, sem isso, fosse menor. Nada contra: sou a favor da intensidade das experiências, mesmo das dolorosas. Mas há dois problemas.
O primeiro é que o entusiasmo com o qual expressamos nossos sentimentos pode simplificá-los. Ao declarar meu amor, por exemplo, esqueço conflitos e nuances. No entusiasmo do "te amo", deixo de lado complementos incômodos ("Te amo, assim como amo outras e outros" ou "Te amo, aqui, agora, só sob este céu") e adversativas que atrapalhariam a declaração com o peso do passado ou a urgência de sonhos nos quais o amor que declaro não se enquadra.
O segundo problema é que nossa verborragia amorosa atropela o outro. A complexidade de seus sentimentos se perde na simplificação dos nossos, e sua resposta ("Também te amo"), de repente, não vale mais nada ("Eu disse primeiro").
Por isso, no fundo, meu ideal de relação amorosa é silencioso, contido, pudico.Para contrabalançar os romances e filmes em que o amor triunfa ao ser dito e redito, como um performativo que inventa e força o sentimento, sugiro dois extraordinários romances breves, de Alessandro Baricco, o escritor italiano que estará na Festa Literária Internacional de Parati, na próxima semana: "Seda" e "Sem Sangue" (ambos Companhia das Letras).
Nos dois, a intensidade do amor se impõe com uma extrema economia de palavras ("Sem Sangue") ou sem palavra nenhuma ("Seda"). Nos dois, o silêncio permite que o amor vingue -apesar de ele não poder ser dito ou talvez por isso mesmo.
No caso de "Seda": te amo em silêncio porque te encontro ao limite extremo de uma viagem ao fim do mundo, indissociavelmente ligada a um outro, e nem sei falar tua língua.Você me ama em silêncio porque sou outro: uma aparição efêmera, uma ave migrante.No caso de "Sem Sangue": te amo, e não há como falar disso porque te dei e te tirei a vida. E você me ama pelas mesmas razões pelas quais poderia e deveria querer me matar (os leitores entenderão).
Nos dois romances, a ausência da fala amorosa acaba sendo um presente que os amantes se fazem reciprocamente, uma forma extrema (e freqüentemente perdida) de respeito pela complexidade de nossos sentimentos e dos sentimentos do outro que amamos.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Meu câncer é meu vizinho

"Quando meu pai Jean-Jacques Servan-Schreiber, foi diagnosticado com Alzheimer, ele se tornou, por incrível que pareça, uma pessoa mais suave e tranqüila" David Servan-Schreiber

VEJA
Exclusivo on-line•

O psiquiatra francês David Servan-Schreiber, professor da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, ficou conhecido mundialmente em 2004, ao lançar o best-seller Curar. Aos 47 anos, ele decidiu falar publicamente do câncer no cérebro que teve aos 31. Foi durante uma experiência neurológica, em que se ofereceu como cobaia, que David descobriu, por acaso, que era portador de um tumor do tamanho de uma noz. Submetido a uma cirurgia e a sessões de quimioterapia, o médico venceu a doença, mas não abandonou os maus hábitos – continuou a comer mal, a não se exercitar e a se deixar levar pelo stress. Com a recidiva do câncer, ele mudou radicalmente a forma de encarar e combater a doença. Essa virada é o tema de seu livro Anticâncer – Prevenir e Vencer Usando Nossas Defesas Naturais (Editora Fontanar). David é o primeiro dos quatro filhos de Jean-Jacques Servan-Schreiber, jornalista, ensaísta e político francês. Fundador da revista L’Express, em 1953, que tinha entre seus colaboradores os escritores Albert Camus e Jean-Paul Sartre, Servan-Schreiber, morto em 2006 de complicações advindas da doença de Alzheimer, era um homem brilhante, bonito e charmoso – tanto que era chamado de "Kennedy francês". No livro, David conta que uma de suas maiores aflições foi dar a notícia da própria doença ao pai: "Escutando a voz dele, meu coração se apertou. Tinha o sentimento de que ia apunhalá-lo... Ele nunca se negara a entrar em nenhum combate, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Mas, nesse caso, não haveria combate. Nenhuma ação militar. Nenhum artigo incisivo a escrever". De Paris, ele deu a seguinte entrevista à repórter Anna Paula Buchalla:
A DESCOBERTA DO CÂNCER – Diagnosticado com a doença pela primeira vez há dezesseis anos, fui tratado pelos métodos convencionais. Nove anos depois, no entanto, tive uma recaída. Decidi, então, pesquisar tudo o que era possível fazer naturalmente, sem recorrer a remédios, para ajudar meu corpo a se defender do câncer. Municiei-me de todo tipo de informação sobre a doença. Hoje, acho que todos os pacientes deveriam fazer o mesmo. Esse é, sem dúvida, o melhor caminho para que médicos e pacientes se tornem parceiros na condução de um tratamento. Infelizmente, ainda não me sinto curado. Em geral, meu tipo de câncer não desaparece. Mas, se eu mantiver o "terreno" saudável, eu e minhas células cancerosas continuaremos a conviver como bons vizinhos por um tempo – talvez um longo tempo.
A EXPERIÊNCIA COMO PACIENTE – Foi difícil aceitar que eu era simplesmente um paciente. Eu me agarrava como podia ao status de médico e ia às consultas de jaleco e crachá. Mas consegui perceber exatamente como se sente um doente. Muitas vezes tinha a sensação de que ninguém se interessava por quem eu era, como se todos só quisessem saber o resultado da minha última tomografia. Eu sempre me considerei o tipo de médico gentil e atencioso com meus pacientes, mas a doença me fez ver que meu comportamento estava muito longe do ideal. Depois disso, mudei radicalmente o modo de praticar a medicina.
O ENFRENTAMENTO DA MORTE – Se há algo de bom em ficar cara a cara com a morte é que se compreende quanto a vida é preciosa. Esse enfrentamento mostra que não se deve desperdiçar a chance de contribuir de alguma forma para a existência dos outros – é isso que fica depois que você vai embora. Apesar de conviver permanentemente com a ameaça de o tumor voltar, eu consigo levar uma vida normal. Na verdade, sinto-me muito mais saudável fisicamente e mais "normal" emocionalmente do que antes de saber que tinha câncer. O que eu fiz para mudar a minha vida me tornou uma pessoa mais equilibrada em todos os sentidos.
O PESO DO ESTILO DE VIDA – Durante muito tempo, acreditou-se que o câncer era, sobretudo, uma questão de genética – e um mal inevitável para quem está propenso a ele. O crescimento no número de casos da doença mostra que a influência dos fatores externos, como os hábitos de vida e o ambiente, é mais impactante na manifestação do câncer do que os genes. A genética é responsável por apenas 10% a 15% dos casos. Defendo a teoria de que todos temos um câncer dormindo dentro de nós. É nosso estilo de vida que vai ou não determinar seu desenvolvimento – seja nutrindo as células cancerosas, seja alimentando os mecanismos de defesa do organismo que impedem a formação de um tumor. O diagnóstico de câncer, porém, não deve jamais criar um sentimento de culpa no paciente. Eu não me sinto culpado nem por um segundo por ter desenvolvido câncer. Eu não fazia a menor idéia de que estava exposto a tantos fatores pró-câncer na minha vida. E talvez eu nunca saiba quais deles foram os mais críticos. Mas conhecer os mecanismos biológicos anticâncer no meu organismo me dá força para enfrentar a doença.
A IMPORTÂNCIA DA DIETA – A alimentação é um elemento-chave na luta contra o câncer – o mais essencial deles, na minha opinião. Pode-se atribuir à dieta a razão principal para a expansão da doença. Nos últimos cinqüenta anos, houve três mudanças muito significativas em nossa alimentação: o aumento do consumo de açúcar refinado, a utilização de produtos químicos na fabricação dos alimentos, como corantes e conservantes, e a mudança do padrão alimentar de animais como vacas e frangos. O consumo de açúcar refinado, que em 1830 era de 5 quilos por pessoa, no ano 2000 chegou a inacreditáveis 70 quilos per capita. Atualmente, os ovos têm vinte vezes mais ômega-6 do que nos anos 70. Em excesso, esse tipo de gordura, usado na ração das aves, facilita o acúmulo exagerado de células adiposas.
AS FERIDAS PSÍQUICAS – Nós estamos apenas começando a entender como os fatores psicológicos influenciam o surgimento de um câncer. Muitos pacientes com quem conversei se lembram de um stress emocional muito forte nos meses ou anos que precederam o diagnóstico de câncer. Certos acontecimentos são tão dolorosos que destroem a imagem que fazemos de nós mesmos ou minam a confiança que tínhamos em alguém. É o caso de alguns rompimentos amorosos. Algumas feridas psíquicas não cicatrizam sozinhas. É preciso encontrar formas de lidar com elas, pois essas feridas repercutem em todo o organismo.
MEDICINA TRADICIONAL X MÉTODOS ALTERNATIVOS – Eu diria que o tratamento convencional salvou a minha vida, mas não me ajudou a prevenir a recorrência do câncer. A relação entre estilo de vida e câncer é tão estreita e evidente quanto a associação entre os hábitos cotidianos e as doenças cardiovasculares. O que me surpreendeu ao constatar isso foi o fato de que ninguém nunca havia me falado sobre tais evidências – nem meus professores na faculdade de medicina nem meus próprios oncologistas. Opções de vida mais saudáveis, como meditação e alimentação equilibrada, foram e são cruciais para o fortalecimento de meu organismo contra a doença. Em minha opinião, tanto os recursos da medicina convencional como os métodos alternativos são indispensáveis e complementares.
O PAI – Quando eu e meus irmãos éramos pequenos, meu pai fazia questão de jantar com os filhos. Por causa de sua vida pública, havia quase sempre convidados em casa e ele insistia para que nós, as crianças, nos sentássemos à mesa. Éramos estimulados a fazer perguntas e participar das discussões. Tenho certeza de que isso me ajudou quando chegou a minha hora de questionar as posições da medicina tradicional. Quando meu pai foi diagnosticado com Alzheimer, ele se tornou, por incrível que pareça, uma pessoa mais suave e tranqüila. Era terrível vê-lo roubado de suas capacidades intelectuais, mas havia também algo de belo quando ele, com um sorriso, dizia: "Finalmente, eu posso simplesmente ser quem eu sou".

O custo a pagar

• Betty Milan
Descobri sua coluna como quem descobre um tesouro. Trata-se de uma aula poética. Sou psicólogo e acredito que, na clínica, o fato de ser humano conta mais do que a técnica. Mas estou enfrentando problemas graves. Tenho poucos pacientes e isso me desespera. Porque não consigo me sustentar e muitas vezes recorro aos meus pais. Também me frustra saber que o trabalho não está dando certo. Para dizer a verdade, fico com inveja de profissionais que conseguem arranjar pacientes facilmente.
Nunca parei de estudar, tenho pós-graduação em Psicanálise e fiz três anos de análise. Sei que deveria fazer mais, porém não tenho como pagar. Mal pago as contas no fim do mês. Às vezes, me parece que profissionais de sucesso, na área da Psicanálise, sempre foram ricos. Você, por exemplo. Só alguém com dinheiro pode ter uma formação tão boa e completa como a sua.
Minha namorada não é de fazer pressão. Sinto, no entanto, que seria bom para ela eu estar melhor estabelecido. Os rapazes da minha idade (tenho 29) já têm casa, carro... e eu, sempre esperando. Me pergunto se é possível ser psicanalista sem ter dinheiro.
O bom clínico é aquele que sabe escutar. Que se exercitou suficientemente nesta arte para receber a mensagem do analisando e para devolvê-la com um sentido novo. Isso implica ter se escutado a ponto de se tornar verdadeiramente disponível, ou seja, poder fazer abstração de si mesmo. O que sustenta a prática analítica é a escuta competente, que provoca a transferência e traz "os pacientes", ou melhor, os analisandos.
Ninguém tem clínica porque cursou Psicologia ou fez um curso de mestrado em Psicanálise. Para tanto é preciso ter se analisado até poder se autorizar como analista. Isso significa dar prioridade à análise e pagar consigo próprio - pagar o custo que for necessário para decifrar o inconsciente e se livrar dos valores da representação.
Por outro lado, o analista não deve depender do consultório para o seu sustento básico. Simplesmente porque fica dependente do analisando e corre o risco de fazer concessões, aceitando um mau uso do tempo da sessão. Lacan recomendava aos alunos que tivessem um trabalho institucional para se sustentar. Com todos os diplomas que você tem, não deve ser difícil encontrar um emprego.
Quanto à questão do sucesso, ela é de somenos para a Psicanálise, que se interessa sobretudo pela razão do fracasso. A questão não é de ser ou não ser rico, mas de ser ou não capaz de trilhar o caminho, que nunca é fácil e pode ser árduo. O melhor livro que você pode ler sobre isso é O Dia em que Lacan me Adotou, de Gerard Haddad, editado no Brasil pela Companhia de Freud.
Haddad cursou Agronomia e se exercia com sucesso na profissão, trabalhando na África para resolver a questão da fome. Em 1969, começou uma análise cotidiana e custosa com o mestre. Custosa do ponto de vista subjetivo e objetivo. Paralelamente, abandonou a Agronomia para cursar Medicina e enfrentou dificuldades econômicas sérias. No livro, ele expõe isso e conta, de forma muito clara, a metamorfose decorrente da análise. Vale a pena ler.
Terça-feira, 08 de Julho de 2008

Betty Milan é colunista da Veja

Psicanalista e escritora


sexta-feira, 11 de julho de 2008

05 COISAS QUE APRENDI COM O LÁPIS...

1° qualidade: Você pode fazer grandes coisas, mas não deve esquecer nunca que existe uma Mão que guia seus passos. Esta mão nós chamamos de Deus, e Ele deve sempre conduzi-lo em direção à Sua vontade.

2° qualidade: De vez em quando eu preciso parar o que estou escrevendo, e usar o apontador. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, masno final, ele está mais afiado. Portanto, saiba suportar algumas dores,porque elas o farão ser uma pessoa melhor.

3° qualidade: O lápis sempre permite que usemos uma borracha paraapagar aquilo que estava errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemosnão é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos manter nocaminho da justiça.

4° qualidade: O que realmente importa no lápis não é a madeira ou suaforma exterior, mas o grafite que está dentro. Portanto, sempre cuidedaquilo que acontece dentro de você.

E Finalmente a 5° qualidade: O Lápis sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que vc fizer na vida, irá deixar traços..

(Paulo Coelho)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Mais um textinho da Martha Medeiros

E o que é que ela vê nele? Nossos amigos se interrogam sobre nossas escolhas, e nós fazemos o mesmo em relação às escolhas deles. O que é, caramba, que aquele Fulano tem de especial? E qual será o encanto secreto da Beltrana?

Vou contar o que ela vê nele: ela vê tudo o que não conseguiu ver no próprio pai, ela vê uma serenidade rara e isso é mais importante do que o Porsche que ele não tem, ela vê que ele se emociona com pequenos gestos e se revolta com injustiças, ela vê uma pinta no ombro esquerdo que estranhamente ninguém repara, ela vê que ele faz tudo para que ela fique contente, ela vê que os olhos dele franzem na hora de ler um livro e mesmo assim o teimoso não procura um oftalmologista, ela vê que ele erra, mas quando acerta, acerta em cheio, que ele parece um lorde numa mesa de restaurante mas é desajeitado pra se vestir, ela vê que ele não dá a mínima para comportamentos padrões, ela vê que ele é um sonhador incorrigível, ela o vê chorando, ela o vê nu, ela o vê no que ele tem de invisível para todos os outros.

Agora vou contar o que ele vê nela: ele vê, sim, que o corpo dela não é nem de longe parecido com o da Daniella Cicarelli, mas vê que ela tem uma coxa roliça e uma boca que sorri mais para um lado do que para o outro, e vê que ela, do jeito que é, preenche todas as suas carências do passado, e vê que ela precisa dele e isso o faz sentir importante, e vê que ela até hoje não aprendeu a fazer um rabo-de-cavalo decente, mas faz um cafuné que deveria ser patenteado, e vê que ela boceja só de pensar na palavra bocejo e que faz parecer que é sempre primavera, de tanto que gosta de flores em casa, e ele vê que ela é tão insegura quanto ele e é humana como todos, vê que ela é livre e poderia estar com qualquer outra pessoa, mas é ao seu lado que está, e vê que ela se preocupa quando ele chega tarde e não se preocupa se ele não diz que a ama de 10 em 10 minutos, e por isso ele a ama mesmo que ninguém entenda.

Martha Medeiros

Alguém comentou sobre o que tal pessoa vê na outra e coisa e tals hoje na aula... dae lembrei deste textinho... =p
e postei... hehe

Se eu postei você também pode!!!
Ache um texto, uma imagem... qualquer coisa que você ache interessante e compartilhe com a gente!! Vamos agitar esse nosso blog.

Um abraço,
Teta

segunda-feira, 7 de julho de 2008

PEDAÇOS DE MIM


Eu sou feito de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos

Sou feito de
Choros sem ter razão
pessoas no coração
atos por impulsão

Sinto falta de
Lugares que não conheci
experiências que não vivi
momentos que já esqueci

Eu sou
Amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por instante

Já
Tive noites mal dormidas
perdi pessoas muito queridas
cumpri coisas não-prometidas

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir,para não enfrentar
sorri para não chorar

Eu sinto pelas
Coisas que não mudei
amizades que não cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei

Tenho saudade
De pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo
Mas continuo vivendo e aprendendo.

Martha Medeiros

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Tautologia
Saber não ocupa espaço, portanto, vale a pena ler.... Cultura ao alcance de todos. Vamos cuidar da nossa lingua portuguesa, com certeza.As armadilhas da língua. Você sabe o que é tautologia? É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido. O exemplo clássico é o famoso subir para cima ou o descer para baixo. Mas há outros, como você pode ver na lista a seguir:
elo de ligação- acabamento final- certeza absoluta- quantia exata- nos dias 8, 9 e 10, inclusive- juntamente com- expressamente proibido- em duas metades iguais- sintomas indicativos- há anos atrás- vereador da cidade- outra alternativa- detalhes minuciosos- a razão é porque- anexo junto à carta- de sua livre escolha- superávit positivo- todos foram unânimes- conviver junto- fato real- encarar de frente- multidão de pessoas- amanhecer o dia- criação nova- retornar de novo- empréstimo temporário- surpresa inesperada- escolha opcional- planejar antecipadamente- abertura inaugural- continua a permanecer- a última versão definitiva- possivelmente poderá ocorrer- comparecer em pessoa- gritar bem alto- propriedade característica- demasiadamente excessivo- a seu critério pessoal- exceder em muito .Note que todas essas repetições são dispensáveis.Por exemplo, surpresa inesperada. Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não. Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias. Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia. Verifique se não está caindo nesta armadilha. Gostou ?

terça-feira, 24 de junho de 2008

Festa Junina





Só pra quem não foi ficar com água na boca!!! =)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Opinião Acadêmica: BICHO DE SETE CABEÇAS

BICHO DE SETE CABEÇAS[1]
Sandra Beck da Silva Etges

"Que a tendência à morte seja vivida pelo homem como objeto de um apetite, esta é uma realidade que a análise faz aparecer em todos os níveis do psiquismo ...", (pois) ... "Essa tendência psíquica à morte, sob a forma original que lhe dá o desmame, revela-se em suicídios muito especiais que se caracterizam como "não-violentos', ao mesmo tempo que aí aparece a forma oral do complexo: ..., envenenamento lento de certos toxicomanias pela boca ... A análise desses casos mostra que, em seu abandono à morte, o sujeito procura reencontrar a imago (ancestral) da mãe".In ... LACAN, Jacques. Os Complexos Familiares, RJ, Jorge Zahar, pág. 28 e 29.
O filme "Bicho de Sete Cabeças" é baseado numa história verídica ocorrida nos anos 70, e apresenta mais uma abordagem anti-asilamento do que uma preocupação com a prevenção e o tratamento do uso das drogas.
Inicialmente, penso ser indispensável abordar com vocês algumas questões preliminares que colocam o tema deste filme para além da denúncia do horror da repressão psiquiátrica da época. Para tanto, vou tentar contextualizar essa questão do uso de drogas.
Nos anos 60, a droga era valorizada como "contestação política, sexo e Rock and Roll", e a paternidade que tentava censurar o seu uso era vista como "careta". Então, o que estava atrelado ao uso da droga era o caráter de contestação, fosse a contestação política à guerra do Vietnã, ou fosse "sexo, droga e/ou Rock and Roll". Segundo pesquisa universitária realizada no Rio de Janeiro (UERJ), os anos 60 foram anos difíceis, porque as pessoas, opondo-se ao patriarcado, caíam no extremo oposto: no culto ao Princípio do Prazer. Isto produzia um efeito de desagregação do Simbólico que as incapacitava a identificarem o seu Desejo nas coisas, porque esse Desejo a que estou me referindo é diferente de Princípio do Prazer. O Desejo comparece como falta, no limite da Lei do Pai, mas como esse pai imaginário era visto e tido como "severo", porque autoritário, não podia ser escutado. Isto gerou uma situação "doentia" que era o não acatamento da Lei e esta Lei é que possibilita se ter uma relação com a "falta a ser" que, por sua vez, é condição para se desejar (na vida). Então, não havendo Lei, não há Desejo e as pessoas recorriam, momentânea e repetidamente, ao uso das drogas e esse consumo era valorizado como "ser moderno", "ser porreta". A alta classe média comprava a droga e a consumia, e a drogadicção não tinha o nível de expansão econômica que tem hoje, nem havia sido incorporada pelo crime e pelo terror na proporção atual. Essas questões foram gradativamente incorporadas à drogadicção, quando o narcotráfico passou a ser, ilicitamente, o "meio de vida" das classes menos favorecidas, passando a ter o poder nas favelas e, também, a ter parcela do poder econômico na sociedade em geral.
Desta forma, quando a droga se associou ao crime e provocou desagregação social, as mesmas pessoas que "cheiravam" para se sentir(em) bem e ser(em) "contra o sistema", embora paradoxalmente fossem economicamente integrada(s) (aliás, na época a droga era usada mais por adultos do que por adolescentes), começaram a ficar ameaçada(s) pelos efeitos de assaltos, de seqüestros, conseqüências da drogadicção. A droga então, passou a ser não só algo prejudicial à saúde do usuário, algo que atendia ao gozo suicida do usuário, mas também passou a ter uma expansão ligada ao crime, o que passou a ameaçar a sociedade como um todo.
A droga, hoje, é, sem dúvida, um problema policial, um problema de corrupção, ligado à favelização e ao controle, pelo terror, das populações subalternas, aos sequestros relâmpagos, ao contrabando de armas e à prostituição. É, portanto, um elemento de desagregação que coloca em risco a vida de todo o mundo. Essa é a conotação que a mídia, a partir dos anos 80, dá para a droga e isso obriga as pessoas a conviverem com o risco da morte sem que essa seja uma opção delas. A revista Veja de 25 de julho de 2001 traz que, segundo dados da ONU, existem 180 milhões de drogados no mundo e que na Holanda, onde a maconha foi liberada há vinte anos, para maiores de 18 anos, ao contrário do que sempre se supôs e/ou alegou, aumentou consideravelmente a criminalidade, pois, metade dos crimes cometidos no país são ligados aos entorpecentes, e o número de presos triplicou nos últimos 10 anos.
O filme "Bicho de 7 cabeças" apresenta o usuário de drogas típico dos anos 60-70, onde o que estava implícito no uso das drogas era, ainda, o caráter de contestação à severidade paterna, trazendo a bandeira do anti-asilamento, mas não adotando a bandeira anti-drogas, e poderíamos dizer que o asilamento repressivo como mostra o filme, e a dependência às drogas, são igualmente nocivos.
A drogadicção, atualmente, não é um capítulo apenas da psicanálise de consultório. Envolve esquemas financeiros, políticos, policiais ... enfim, envolve a corrupção, o que dificulta seu combate em todo o mundo. Assim, é necessário por em cena a perversidade e o perversismo que tornam a drogadicção uma realidade de consumo, bem como, as causas de seu consumo individual e a sua distinção em relação a outras manifestações psíquicas graves. E, ao se abolir o asilamento, há o risco de, principalmente nas populações de baixa renda, hoje mais afetas diretamente, por razões urbanas e geográficas, ao contato marginal com as drogas, não se ter como tratar os casos mais graves, tanto da drogadicção, quanto das psicoses e, assim, aumentarem as manifestações de violência no cotidiano.
Hoje, admite-se o asilamento só quando há risco de vida ou de desagregação social e/ou econômica do usuário de drogas ou das pessoas que com ele convivem; e ocorre, em sua maioria, para populações que não têm a assistência médica e psicanalítica necessárias e por um período temporário (breve), em geral, de um mês; portanto, em situação completamente diferente da mostrada no filme. Essa internação explicitada no filme, é lamentável e condenável. O filme induz à generalização de um modelo de internação já superado, como se ocorresse, em sua maioria, ainda hoje. Uma coisa é evitar-se o asilamento repressivo e desumano, porque desnecessário, porque torturante, repetindo equívocos da psiquiatria dos séc. XVIII e XIX; deve-se evitar o tratamento clinicamente incompetente do sucessor do "endemoniado" medieval. Outra, bem diferente, é abolir-se o asilamento em casos onde há o risco de vida (própria ou de outrem). Vamos usar um outro exemplo para ficar mais claro: o fato de alguns hospitais sabidamente cometerem uma série de imprudências com nasciturnos, não vai acarretar o também fato de que se passe a proibir a existência de maternidades. O raciocínio é idêntico. Para a proteção da vida tanto as maternidades como os hospitais psiquiátricos são igualmente necessários e indispensáveis e o filme trata essa questão como se, nos dias de hoje, não existissem asilamentos singulares competentes e com divisões específicas para cada estrutura psíquica. Aquele asilamento colocava no mesmo "saco" da "doença mental", paranóicos e dependentes de drogas, o que já foi exaustivamente denunciado na obra de Michael Foucault nos anos 60.
Parece-me que, diante do absurdo daquele asilamento, o filme pode promover uma identificação com a vítima e, assim, ele passa a ter um caráter tolerante para com a drogadicção, banalizando, dessa forma, o uso da droga. Uma pessoa que estava ao meu lado no cinema, ao final do filme falou: "fizeram um bicho de 7 cabeças com a maconha do menino, antes ele tivesse ficado com ela". Do ponto de vista lacaneano do "Kant com Sade", que é um texto de Lacan nos Escritos (1966), "a severidade repressiva gera a identificação à vítima e às suas razões", e o caráter de vitimação é o pior caminho para qualquer possibilidade de recuperação e/ou cura.
Então, o que quero salientar é que não dá para se falar em droga hoje, levando-se em conta apenas o seu caráter contestatório próprio dos anos 60 e 70. Isso é passado. Hoje, os atos recentes mostram que guerrilheiros, terroristas e traficantes têm-se misturado bastante, colocando em risco o mundo; vide, por exemplo, os Talibãs que viviam da venda de heroína. Então, não se pode ser complacente e tolerante para com a drogadicção e já existem maneiras diferentes da apresentada no filme para se tratar o dependente de drogas. Aliás, o foco do filme não foi o tratamento e sim o não tratamento, talvez sua "suposta não necessidade".
No entanto, por outro lado, o filme suscita o seguinte questionamento que todos deveriam fazer sobre o tratamento e prevenção do uso das drogas. O que fazer de fato? O que será que pede alguém que recorre às drogas? - Na sua busca desenfreada e gozoza de prazer na droga, que é a manifestação de seu gozo com a morte, ele "pede" que alguém o contenha, que alguém lhe dê um basta ou tente fazê-lo, porque ele não consegue conter-se sozinho, já que sofre e goza com isto. Ele quer encontrar, na fala de um outro, algum lugar que justifique a sua inclusão no mundo. Ele quer ser "falado" sem dó, compaixão ou culpa; ele quer ser reconhecido por algo que ele é ou que pode vir a ser. E tudo isso comparece numa parte belíssima do filme que é o encontro do "Neto"[2] com a garota. A meu ver, o melhor momento do filme porque, ali, é tirado de cena o caráter de vitimação do menino incompreendido pela família. Naquele momento, após se decepcionar com os amigos, um dos amigos tenta seduzí-lo sexualmente, ele sai desesperadamente à procura de alguém que possa lhe dar um dinheiro para voltar para casa, e ao encontrar essa garota, ela lhe oferece um suco e diz a ele que emprestaria o dinheiro com a condição de ele lhe devolver pelo correio. Essa atitude foi extremamente desejante, porque pôs um limite ao lugar vitimado que "Neto" ocupava para os outros e o reconhece como um homem (homem que não "Neto") capaz de pagar por suas coisas, acreditando na sua capacidade de conviver com o mundo.
Essa garota o leva para sua casa onde prepara um jantar para seus amigos e, com muito empenho e carinho, o inclui no preparo dos pratos, o ensina a cortar o gengibre, numa atitude até então desconhecida por "Neto". É neste clima, com uma sonografia e colorido muito bonitos, que ele teve (no filme) a sua primeira e parece que última relação amorosa. Talvez sua primeira possibilidade de encontro com sua questão desejante, de subjetivar um lugar que lhe fosse próprio. Ele passa, a partir de então, a ter algo para sonhar e não para esquecer. Ele passa a ter uma possibilidade para construir uma expectativa de que a vida possa valer à pena.
O filme então, nesta parte, apresenta uma saída para a drogadicção que não pela via da severidade repressiva ou pelo álibi da vitimação, e, sim, por uma via desejante, que não quer dizer a da compaixão, que não quer dizer o atender a tudo que o outro pedir. O dependente de drogas precisa querer se dar conta do gozo para com a morte que desenvolveu, deste gozo irrefreável em se ver em situações para ele degradantes, como a que ocorre na cena da praia com os amigos, para querer sair dessa. Mas, ele só poderá reconhecer-se se tiver a oportunidade de se contrapor a esse gozo com a morte. É lamentável que essa expectativa positiva frente a vida fosse precocemente abortada pela atitude severa e absurda daquela internação, mas apenas denunciar a repressão jamais teve o "dom" de suprimir o efeito maníaco degradante desse "apetite" (da morte) pelas drogas.
Assim sendo, tratar o usuário de drogas, hoje em dia, requer enlaces sociais com a droga como "sintoma" de degradação e, no nível singular de consultório, é preciso se dar conta de sua auto-exclusão familiar e social, conseqüências desse gozo com situações que conduzam à morte e não à vida. É desse gozo que ele precisa abrir mão, senão ele não usaria drogas. A abordagem psicanalítica privilegia a escuta, o ato que põe limite ao Princípio do Prazer, que não é a severidade nem a repressão, e sim fazer com que, dentro do possível, o dependente de drogas se inclua ali onde ele se excluiu, na família, na escola, na sociedade, para que ele possa simbolizar esse gozo com a morte encontrando um outro significado para sua vida que não a morte, ou seja, deve fazer com que, ainda que artificialmente, algo sintomatize a exclusão que advém deste Real; esta é a função do Desejo do Psicanalista ou o sintoma não é "a manifestação do Real no nível dos seres vivos"?
A nível extensivo, para além do consultório, uma excelente tese de mestrado em Psicologia Social da UERJ demonstrou que as campanhas educativas de combate a AIDS e drogas tem a eficácia restrita porque não se trata só de uma questão de conscientização. Elas não levam em conta esse gozo para com a morte que muitos aidéticos e dependentes de drogas procuram, principalmente pela via das drogas injetáveis. Daí a dificuldade da prevenção e erradicação da doença, principalmente nas "classes ditas intelectualmente favorecidas". Então, também a nível comunitário, mais do que simplesmente combater a adesão às drogas, o que deveria acontecer são projetos de inclusão dos adolescentes, como: ensino profissionalizante, atividades desportivas e culturais tais como dança, teatro, música entre outras, que apresentem uma desejante possibilidade de valorização pessoal, inclusão social e de integração à vida, uma valorização narcísica constante, senão para por um fim, pelo menos isso possa ter a força de evitar a adesão às drogas e de minorar o acesso à criminalidade. Quem se gosta não usa drogas, e, utilizando o raciocínio de Lacan que diz: o psicótico "ama o delírio como a si mesmo", poderíamos dizer que o dependente de drogas "ama o gozo com a morte como a si mesmo", quando todo o dependente deveria poder "amar um sintoma como a si mesmo".
Desta forma, para concluir, cito o Ziraldo em cartazes ("outdoors") no Rio de Janeiro: "A Droga é uma merda!"

SANDRA BECK DA SILVA ETGES, é membro analista do Centro de Estudos Lacaneanos -CEL-RS, Instituição Psicanalítica do Rio Grande do Sul.
Notas:
1 - Esse texto foi produzido a partir de um convite da Associação dos Amigos do Cinema de Santa Cruz do Sul - RS, para participar de um debate sobre este filme que fora exibido na cidade simultaneamente à campanha de combate às drogas, "100% Vida", promovida pelas Associações de Pais e Mestres das escolas locais, em novembro de 2001.
2- O nome "Neto" é como o personagem é chamado. Ora, "Neto" não é nome próprio, designa a ancestralidade do avô. É, como tal, um significante secundário que deveria ser acrescentado ao nome próprio que, ali, é omitido. Logo, esta não-nomeação designa o personagem. Não seria grave se ali não estivessem evidentes os traços foraclusivos provenientes da severidade paterna que é, aliás, denunciada como repressiva no próprio filme, fazendo do personagem um "Neto" sem avô. Em suma, ali se fez uma metáfora da foraclusão até na maneira de designar o personagem.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

André Pitaluga, deixará saudades...

Nesta semana soubemos que nosso professor André Pitaluga nos deixará.
Quando contei a novidade em sala de aula, disse que tinha uma boa e uma má noticia. A boa era que um de nossos professores tinha conseguido algo que muito almejava: ingressar como pesquisador no reconhecido Instituto Fiocruz, no Rio de Janeiro. A má notícia era que, em função disso, estava nos deixando. De qualquer forma, ficamos muito contentes por ele.
Um grande abraço de todos nós! Desejamos-te todo o sucesso que mereces!

Não por acaso, me lembrei de um texto que escrevi sobre a amizade nas páginas do “Floripa Total”

Rafael Villari

No Divã...

“À Amizade”
Dr. Rafael Villari
Psicanalista

Em primeiro lugar, sem mais delongas, entendo a amizade como uma forma de amor específica que não se com-funde com o amor dos amantes. Talvez, iniciarmos um contraponto com este último possa nos orientar. Podemos pensar, de início, na distinção grega entre Eros e Philia. Embora depois de Freud saibamos que toda forma de Philia está sujeita a Eros.
Em relação ao amor dos amantes, Jacques Lacan, psicanalista francês e renovador da descoberta freudiana, dizia que “Amar, é dar aquilo que não se tem” para ainda acrescentar “a aquele que não é”. Por isso, entende-se que ser amado é esperar do outro, aquilo que não pode nos dar, embora o prometa. Quiçá, em outra ocasião e neste espaço, poderia progredir no comentário desta idéia; porém, neste momento, somente gostaria de destacar a dimensão de espera e de esperança que o amor dos amantes tem em seu fundamento, além do viés do engano. Podemos afirmar que ele nasce, se nutre e mantêm, no terreno da ilusão. Trata-se da promessa de uma felicidade futura. Daí que quando a ilusão não é alimentada ou se desfaz...
Neste sentido, o amor dos amigos é muito diferente. Ele não se nutre de espera, esperança e engano, mas, como diz Juan-David Nasio, de presença. Ele afirma ainda existirem três características fundamentais no amor dos amigos. A primeira é que o sexo não está presente, ao que acrescento, de forma direta e necessária. Embora a necessidade do prazer dos beijos e abraços enviados por telefone ou correspondência se torne real e sentida, quando a ocasião o permite, não há qualquer resquício de erotismo nisto. Outra questão fundamental é a reciprocidade: os amigos se amam mutuamente. Não existe amizade não correspondida. Sempre é mutua. A última diferença é que a amizade não é possessiva. Nossos amigos têm outros a quem amam da mesma forma que a nós, e isto não nos afeta; pode, inclusive, nos jubilar. A dimensão do ciúme não está presente e, mesmo que, dada alguma particularidade apareça por algum motivo, em nenhum caso afeta à amizade mesma.
Mas, quando escrevo estas linhas percebo que ao pensar no tema me remeto à particularidade de amizade entre homens e, ao mesmo tempo, noto a dificuldade em pensar a amizade entre mulheres ou entre homens e mulheres. Tema, talvez, para outro artigo mas que, em todo caso, coloca em xeque a generalidade das características do amor da amizade configurando, assim, todo um terreno a ser abordado. Desta forma, me pergunto: é possível a amizade entre mulheres? Se possível, é mais difícil ou complexo do que nos homens? Que lugar ocuparia o erotismo na amizade entre homens e mulheres, caso fosse possível? Como vemos, não faltam questões para outros momentos.
Posso arriscar de que a amizade entre os homens é mais simples na medida em que sabemos que a subjetividade masculina é muito menos complexa e enigmática do que a feminina. Enquanto os homens fazemos conjunto, frequentemente ouvimos dizer das mulheres, com um misto de desprezo e inveja: “no fundo, são todos iguais (os homens)”, a feminilidade é muito mais sofisticada, complexa e enigmática. Nenhum homem, com alguma sensibilidade, afirmaria que “as mulheres são todas iguais”; podem querer quase as mesmas coisas, como sentirem-se amadas, por exemplo, mas a singularidade é evidente.
Enquanto a masculinidade se configura de forma quase definitiva no fim da adolescência, a feminilidade evolui e se transforma ao longo de toda a vida de uma mulher produzindo especificidades subjetivas dificilmente encontradas no homem. Daí que para os homens seja muito mais fácil o reconhecimento mútuo ao tempo que, na mulher, dada sua infinita particularidade, encontre menos simetria no espelho da amizade.
É muito freqüente, por exemplo, quando de uma reunião de casais que, em pouco tempo, os homens, mesmo não se conhecendo, irem se distanciando de suas companheiras para conformar um grupo masculino. Quando a rivalidade entre eles não aparece, em instantes, percebe-se uma fraternidade jubilosa e quase infantil. Por outro lado, o grupo feminino que estabelece, no melhor dos casos, alguns laços aos pares e dificilmente em conjunto, em pouco tempo dirige seu olhar, muitas vezes reprovador, à grotesca turba masculina que parece, acreditem (!), ter esquecido delas. É preciso, então, da reprovação e/ou sedução para ‘recuperar’ os mal-educados companheiros. Isto, que quer ser uma simplista e bem-humorada imagem de parte de nosso cotidiano, retrata a facilidade masculina em encontrar no outro a imagem de si.
E esta, talvez, seja uma questão fundamental no vínculo amoroso da amizade; já que ela se desenvolve no campo da identificação. Isso que faz com que reconheçamos no outro aquilo que conhecemos porque é, também, nosso. Nesse sentido, a amizade nos permite ser nós mesmos, sem máscaras. Disso decorre o prazer de estar com os amigos. Esta questão parece ter uma grande importância, do mesmo modo que as férias, para a economia psíquica e seu equilíbrio. Pensemos que, de uma forma geral, nossa vida cotidiana se desdobra em diferentes papeis: somos pais, cônjuges, profissionais, vizinhos, cidadãos, etc. Isto nos obriga, de alguma forma, a nos desdobrar mudando de máscaras e papeis de forma constante. Com os amigos é diferente. Com eles não precisamos dessas máscaras e podemos sentir o grande prazer e descontração de ser o que somos sem nos preocupar, consciente ou inconscientemente, com nosso papel do momento. Disso decorre que esses instantes nos lancem numa despreocupação gozosa que em muito alivia o dia-a-dia.
Os laços da amizade se tecem com o tempo, embora o primeiro nó possa se atar num rompante inesperado do acaso; pode, inclusive, ser imperceptível. Ela se instala aos poucos, como pedindo licença em nossas vidas até que um dia nos damos conta que essa pessoa ocupa um lugar que antes não existia. Trata-se de um momento de júbilo em que percebemos que mais alguém passa a fazer parte de conjunto de seres queridos e importantes que nos rodeia. Assim, tornamo-nos arte-sãos do vínculo porque, como dizia, ele se faz de presença; o que não quer dizer que a lembrança constante dos amigos distantes não seja uma forma da estar juntos.
Finalizando, arrisco um breve elogio à amizade, ciente de declinar na pieguice. Porque a amizade é um dos sentimentos mais lindos e estimulantes da vida. Fonte de alegria, ela nos conforta. Trata-se da felicidade e do regozijo de saber que estamos acompanhados, em contato, sabendo que o outro espera de nós somente aquilo que somos. A amizade é, portanto, a intensidade da presença, simbolizando a disponibilidade do outro.

Grande abraço ao amigo André!



quarta-feira, 11 de junho de 2008

A volta da filosofia

12/06/2008

A coluna de hoje será agitada. Começo traindo a classe. Embora eu tenha formação acadêmica na área de filosofia, vejo com desconfiança a recém-sancionada lei que torna obrigatório o ensino desta matéria e da sociologia nas três séries do ciclo médio em todo o país. A mudança, que não chega a ser uma revolução, pois as duas disciplinas já vinham sendo paulatinamente reincorporadas à rede, parece-me servir mais aos interesses de sindicatos e a um certo populismo educacional do que à causa do ensino propriamente dita.
Antes de prosseguir eu gostaria de desfazer alguns enganos comuns. Não, a filosofia não "ensina a pensar" nem a "ser ético". Trata-se de uma disciplina como outra qualquer. O aluno é apresentado a um universo conceitual específico e, depois, nas provas e trabalhos, instado a mostrar como lida com as novas "ferramentas". Não há mágica nenhuma. Não é porque o estudante vai ler textos que refletem sobre a aquisição do conhecimento, por exemplo, que se tornará mais apto a conhecer. De modo análogo, estudar como determinados autores pensaram a moral e a ética não é em absoluto garantia de que o aluno se tornará um ser mais moral e mais ético.
Concordo que, pelo menos no ciclo médio, é preciso alargar os horizontes do aluno. Não dá para ficar só ensinando português e matemática e as matérias "clássicas" como física, biologia, história. É preciso passar também algumas referências relevantes da cultura e da ciência ocidentais. A filosofia é uma boa candidata, mas está longe de ser a única. Por que não história da arte, direito, estatística, psicologia, medicina? O melhor, creio, seria deixar para cada escola definir o que convém mais a seu público. É esse espírito anarco-autonomista, que constava da redação original da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a popular LDB, que vem sendo revertido nos últimos anos.
Em termos práticos, a nova lei não muda muita coisa. Desde 2006 uma resolução do Conselho Nacional de Educação já obriga as escolas de ensino médio a ministrar as duas matérias. É claro que uma lei é mais forte do que uma resolução, e isso poderá levar os conselhos estaduais que vinham enrolando na implantação da norma a andar mais depressa. A principal alteração está na especificação de que as disciplinas devem ser oferecidas nas três séries do ensino médio. Pela resolução bastava uma. É aí que reside a esperteza dos sindicatos de sociólogos, que viram sua reserva de mercado multiplicar por três. Eu não saberia explicar por que os filósofos, que são provavelmente a única categoria sem representação sindical, também entraram na festa. Imagino que isso se deva ao fato de a disciplina, por razões que a própria razão desconhece, ainda gozar de um prestígio quase reverencial.
A turma da direita já saiu gritando que o novo diploma vai institucionalizar a doutrinação esquerdista. É um risco, admito. Mas há também um outro que eles não apontam: como as faculdades de filosofia dificilmente serão capazes de fornecer a legião de professores necessária para suprir a demanda, as escolas tenderão a recrutar seus docentes pela habilitação mais próxima da filosofia, que é a teologia. E se há algo tão ruim quanto um exército de marxistas vulgares armados de discursos antiimperialistas é uma hoste de padres brandindo catecismos. Pior mesmo só se forem clérigos disparando teologia da libertação, que junta as mais capengas categorias do marxismo ao mais caricatural reacionarismo católico, mas deixemos esse cenário apocalíptico de lado.
Meu propósito central nesta coluna é mostrar que a volta da filosofia e da sociologia ao ciclo básico não passa nem perto de ser uma solução para a grave crise que a educação enfrenta hoje.
O regime militar foi criticado, com razão, por ter eliminado, em 1971, as duas disciplinas do então colegial. Fê-lo por razões muito mais pragmáticas do que teóricas: essas matérias agregavam um número desproporcionalmente grande de professores com idéias de esquerda. É um erro, entretanto, considerar, como alguns ainda o fazem, que a extinção da filosofia e da sociologia foi a responsável pelo ocaso do ensino público que se percebe desde então. Um candidato muito mais verossímil é a massificação da escola. Entre os anos 30 --a era dourada do ensino público-- e os 90, o número de alunos da rede oficial aumentou nada menos do que 20 vezes. Os recursos aplicados cresceram num proporção bem menor.
O resultado foi duplamente perverso. De um lado, a incorporação de grandes contingentes de alunos do estrato social mais baixo significou uma queda na qualidade. Esse, entretanto, era um efeito esperado e que deveria ser transitório. De outro, a rápida ampliação da rede sem um aumento correspondente dos recursos investidos levou a uma espécie de proletarização do professorado. Esse fato, tomado por si só, tampouco precisaria ser um grande problema. A correlação entre salário dos mestres e desempenho dos discípulos é menos cristalina do que supõem os sindicatos.
Ocorre que essas ocorrências não se deram de forma isolada. Esses dois movimentos se reforçaram e, somados a outros que não cabe aqui mencionar, acabaram por provocar uma notável corrosão do prestígio do magistério. Até algumas décadas atrás, o professor, ao lado do padre e do juiz, compunha o rol das "autoridades" de uma cidade do interior. Hoje, os mestres são muitas vezes vistos como o "tipo ideal" do funcionário público indolente, mais preocupado em arrancar pequenas vantagens do Estado do que em cumprir sua obrigação de educar alunos.
É uma generalização e, como toda generalização, essencialmente injusta, mas não inteiramente desprovida de base empírica. Como a categoria de professores de escolas públicas amargou décadas sem obter aumentos salariais significativos, foi se contentando com pequenas concessões que lhe eram lançadas como migalhas pelos governantes. Foi assim que se acumularam, por exemplo, 19 dispositivos legais que permitem ao mestre faltar sem sofrer redução salarial. No Estado de São Paulo, professores têm abonadas até 32 ausências por ano (um mês extra de férias!, diriam alguns). O reflexo dessa política na rede oficial se mede numa taxa de absenteísmo de 12,8%, contra menos de 1% em escolas privadas. Se isso não contribui para a fama de vagabundo, é difícil imaginar o que possa fazê-lo.
É claro que não sou tradicionalista a ponto de chorar o prestígio perdido apenas pelo prestígio. A minha hipótese é que a desvalorização social do magistério é uma das principais causas do desastre educacional brasileiro. Não se trata de mero achismo. Como mostrou reportagem da Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal) desta segunda-feira, estudo encomendado pela Fundação Lemann e pelo Instituto Futuro Brasil mostra que apenas 5% dos melhores alunos que se formam no ensino médio desejam trabalhar como docentes da educação básica. Dos que ficaram entre os 20% mais bem colocados no Enem 2005 (Exame Nacional do Ensino Médio), 31% querem trabalhar na área da saúde e 18% se inclinam para a engenharia.
Isso significa que estamos recrutando nosso professorado entre os piores alunos, o que, acreditem, faz a diferença. Exaustivo trabalho da consultoria McKinsey (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal) de comparação de vários sistemas de educação do mundo, publicado no ano passado, revela que a primeira das três variáveis que mais se destacam nas redes de ponta é "escolher as melhores pessoas para se tornarem professores".
Na Coréia do Sul, por exemplo, a primeira colocada no ranking de leitura no Pisa 2006 (exame internacional), os futuros professores são obrigatoriamente escolhidos entre os 5% que se saem melhor na prova nacional para ingresso no ensino superior --o "vestibular" deles. Na Finlândia, segunda no mesmo ranking, os professores são selecionados entre os "top ten".
Trocando em miúdos, o "segredo" do ensino de qualidade é a soma de um truísmo (bons professores formam bons alunos) com uma obviedade (para recrutar os melhores profissionais, é preciso oferecer uma carreira atrativa, senão financeiramente, ao menos em termos de valorização social). É exatamente o que não estamos fazendo.
E não me parece que a introdução da filosofia e da sociologia em regime obrigatório e intensivo contribuam para reverter nossa penúria pedagógica. Essa é antes uma manobra diversionista, mais uma compensação a sindicatos que ficaram por algum tempo de fora do butim. Uma mudança de verdade implicaria redefinir quais são as carreiras com e sem prestígio no país. E isso envolveria redesenhar os feudos já estabelecidos pela república das corporações em que o Brasil tristemente se converteu.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

domingo, 8 de junho de 2008