quinta-feira, 25 de junho de 2009

Bullying: do conto infantil à tragédia social


Para investigar uma das modalidades de violência que mais cresce e ameaça crianças em todo o mundo, a convulsão social bullying, o Conexão Professor entrevistou a Professora Tania Zagury, que, além de tratar o fenômeno em seu acervo literário, é também filósofa e mestre em Educação. Autora de, entre outros, Limites sem Trauma, Educar sem Culpa e Encurtando a Adolescência, Tania procura alarmar familiares e pedagogos para a emergência na detecção e no tratamento do problema. Confira aqui a entrevista:

Conexão Professor (CP) - Que contexto potencializa o bullying?
Tania Zagury - Ambientes altamente competitivos; sociedades individualistas que desprestigiam a racionalidade, o saber e os valores humanos; famílias onde a injustiça, as agressões físicas ou nas quais a tônica é a falta de autoridade dos pais são fatores que, conjugados, favorecem o aparecimento do fenômeno. O bullying compreende todo o tipo de agressões , intencionais, repetidas e sem motivo aparente, que um grupo de alunos adota contra um ou vários colegas, em situação desigual de poder, causando intimidação, medo e danos à vítima. Pode apresentar-se sob várias formas, desde uma simples "gozação" ou apelido (sempre depreciativo), passando por exclusão do grupo, isolamento, assédio e humilhações, até agressões físicas como chutes, empurrões e pancadas. Pode incluir também roubo ou destruição de objetos pessoais. Portanto, uma briga entre dois alunos, no pátio da escola ou na hora da saída, não caracteriza bullying, que ocorre sempre numa situação em que a vítima está em desvantagem física e/ou emocional. É importante esclarecer que não é fenômeno novo, embora atualmente venha se tornando mais violento e, em alguns casos, acabando de forma trágica, dada a facilidade de aquisição de armas e à exposição excessiva e enfática que a mídia dá a casos semelhantes, especialmente quando envolve indivíduos com forte labilidade emocional.

CP - É possível traçar o perfil de um potencial agressor e de um potencial agredido?
Tania Zagury - Em geral, os agressores são pessoas com pequeno grau de empatia, oriundos de famílias desestruturadas, ou que não trabalham adequadamente a questão dos limites, nas quais não há bom relacionamento afetivo ou em que a agressão física é comumente utilizada como forma de solucionar conflitos. Já as vítimas são, em geral, pessoas tímidas, sem muitos amigos, introvertidas e pouco sociáveis, com baixa capacidade de reação a esse tipo de situação. São geralmente inseguras, têm baixa auto-estima e pouca esperança de conseguir ajuda por parte de colegas ou dos adultos responsáveis por elas. É bom ressaltar, porém, que, em se tratando do ser humano, nem sempre as coisas ocorrem de forma tão linear, nem são totalmente precisas.

CP - Como detectar e tratar o distúrbio?
Tania Zagury - A detecção é difícil, porque o bullying é sempre praticado de forma dissimulada, em locais em que seja difícil a visualização do que está ocorrendo ou em momentos em que os adultos não estão presentes ou se distraem momentaneamente. Portanto, o que de melhor se pode fazer é criar redes de proteção aos que presenciam ou sofrem tais agressões, de forma que se sintam seguros para denunciar o fato sem se sentir em risco, ou seja: é preciso trabalhar preventivamente, criando redes de proteção para estimular e reforçar a possibilidade de denúncia. Trabalhar de forma a deixar claro para toda a comunidade que haverá sanção aos agressores intimida bastante e costuma diminuir o percentual de ocorrências, enquanto que a impunidade, pelo contrário, estimula e faz aumentar a incidência.

CP - Quem deve estar atento e pode ajudar?
Tania Zagury - Quanto mais se estuda o assunto, mais claro fica que, tanto os educadores nas escolas quanto a família devem agir de forma proativa e assertiva. A intervenção dos adultos e a atenção ao problema devem ser estimuladas em todos os níveis. De preferência, criar e divulgar os mecanismos disponíveis para que as vítimas potenciais e os expectadores (são os que já presenciaram casos de violência contra colegas) sintam-se fortalecidos e estimulados a apontar os agressores.

Conexão Professor (CP) - O que explica o maior ou o menor número de casos dentro de uma instituição escolar? Onde mais o distúrbio pode se manifestar?
Tania Zagury - Quanto maior a certeza de impunidade, maior a freqüência de ocorrências. O problema é mais freqüente nas escolas, mas pode ocorrer também em clubes, condomínios ou quaisquer outros locais freqüentados com certa regularidade por crianças e adolescentes, de forma tal que permita os grupos se formarem e as vítimas potenciais serem detectadas pelos agressores.

CP - Que comprometimentos emocionais a criança pode desenvolver a partir do bullying? De que forma o distúrbio interfere na construção psicológica dos envolvidos?
Tania Zagury - A longo prazo, o bullying - se não combatido de forma eficaz - pode levar à sensação de impunidade e, conseqüentemente, a atos anti-sociais, dificuldades afetivas, delinqüência e crimes graves. Pode também levar a atitudes agressivas no trabalho, na escola ou na família. De repente, aparentemente sem causa específica, um jovem entra numa escola, matando e ferindo. Não estou afirmando que o bullying é sempre ou unicamente a causa ou a origem dos assassinatos em massa cometidos por jovens, mas parece haver ligação entre os dois em vários casos - o que torna essencial tomarmos em nossas mãos a prevenção do problema. Mesmo não chegando a extremos como este, a violência gratuita e covarde precisa e deve ser combatida com firmeza.

CP - Que tipos de discriminação levam à violência entre as crianças?
Tania Zagury - Tudo e nada ao mesmo tempo: qualquer diferença individual ou social pode ser motivo de perseguição. Por exemplo, uma criança gordinha ou muito baixa; mais escura ou muito clara; sardenta ou ruiva; mais alta do que a média; dentuça ou a quem faltem dentes... Enfim, aquelas que se diferenciam da média. Pode ser também o mais bonito, o mais "paquerado"; o que tem mais roupas ou é admirado pelos professores, o que só tem notas altas. O bullying é mais freqüente entre meninos; entre as meninas assume forma diferente: em geral, a exclusão ou a maledicência são as armas mais comuns.

CP - Que medidas devem ser adotadas diagnosticado o distúrbio?
Tania Zagury - Nas escolas, sugiro algumas medidas importantes:
- Treinamento para instrumentalizar todos os que lidam com alunos, no sentido de estarem atentos e aptos a perceber tentativas de intimidação ou agressão entre estudantes. Para tanto, é preciso conhecer sinais, perceber sintomas e atitudes que caracterizam vítimas e agressores;- Segurança e clareza do corpo técnico sobre medidas para intervir adequadamente;- Assegurar, através de exposição clara nas turmas, que tanto vítimas como expectadores terão sempre a proteção e o anonimato garantidos;- Implantar um esquema institucional de responsabilização para os agressores, de preferência não excludente, mas no qual agressores arcarão com as conseqüências de seus atos.- Procurar revestir as sanções de caráter educativo; excluir pura e simplesmente não forma consciência, nem transforma agressores em bons cidadãos.- Fortalecer os que sofrem ou presenciam o bullying, oferecendo canais de comunicação que garantam a privacidade dos que se disponham a falar;- Treinar a equipe da escola (em todos os níveis), de forma a adotar forma única e homogênea de agir nesses casos, para que todos se sintam protegidos: corpo técnico, alunos-vítimas e expectadores (só assim o silêncio se romperá);- Incorporar ao currículo medidas educacionais formadoras, a serem trabalhadas por todos os professores, independentemente da matéria, série ou grupo, dando-se especial ênfase ao desenvolvimento de habilidades sociais tais como: saber ouvir; respeitar diferenças; ter limites; saber argumentar sem discutir ou agredir; ser solidário; ter dignidade; respeitar o limite e o direito do outro etc.
Na família, por outro lado, a ação dos pais ou cuidadores deve focar:
- a questão dos limites;- a formação ética dos filhos;- a não aceitação firme do desrespeito aos mais velhos e/ou mais fracos.
Isto é, a família deve reassumir o quanto antes o seu papel de formadora de cidadãos, abandonando a postura superprotetora cega e a crença de que amar é aceitar toda e qualquer atitude dos filhos, satisfazer todos os seus desejos, não criticar o que deva ser criticado e nunca responsabilizá-los por atitudes anti-sociais.

CP - Videogames e filmes violentos podem gerar na criança a assimilação de práticas agressivas, funcionando como motores do bullying?
Tania Zagury - Estudos recentes mostram que há correlação positiva entre agressividade e número de horas que as crianças ficam em frente da tevê, assistem a filmes violentos ou jogam videogames com temática violenta. Quer dizer, quanto mais tempo e mais precocemente começam, maior probabilidade de incorporarem como naturais e aceitáveis atitudes agressivas ou violentas. Alguns estudos detectaram, inclusive, mudanças de comportamento em crianças pequenas, poucas horas depois de expostas a programas com esse tipo de conteúdo. De qualquer forma, é importante saber que nem toda brincadeira agressiva irá "obrigatoriamente" gerar atitudes de bullying, mas é importante alertar que não se pode ignorar e que nos remete, mais uma vez, à questão dos limites que, tanto pais como docentes, precisam desenvolver nas novas gerações.
janeiro/2009

Bullying - 27/04/2009

Assista ao comentário de Luiz Carlos Prates no Jornal do Almoço.

http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=60455&channel=47

sábado, 20 de junho de 2009

INFORMAÇÕES - CURSO PSICOLOGIA ESTÁCIO-SC

Matrículas Veterano (via aluno on-line)
05/07/2009 - Vencimento da taxa de rematricula
10 à 17/07/09 - Matrícula via internet (aluno on-line)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Lacan cem anos depois

O psicanalista Jorge Forbes fala sobre a importância do psicanalista francês para o pensamento moderno e explica por que o brasileiro é um otimista

No último dia 13 de abril, foi comemorado o centenário de nascimento do psicanalista francês Jacques Lacan, o homem que, a partir de Freud, reinventou a psicanálise. Mas nem todos festejaram a data. Intempestivo, polêmico, hermético e genial, Lacan arrebatou admiradores e inimigos quase na mesma proporção. Parte do primeiro time, o psicanalista Jorge Forbes, 49 anos, de São Paulo, é um dos maiores especialistas em Lacan no País. Divide com alguns poucos o mérito de introduzir a obra lacaniana no Brasil. “Sem Lacan, a psicanálise não existiria”, provoca Forbes. Nesta entrevista, o ex-presidente da Escola Brasileira de Psicanálise fala sobre a importância de Lacan para o pensamento moderno e aborda também outros temas, como angústia, depressão e um certo caráter do povo brasileiro.

ISTOÉ – Qual é o legado deixado por Jacques Lacan?
Jorge Forbes – Jacques Lacan pode ser considerado o mais importante psicanalista depois de Sigmund Freud. Sem ele, hoje não existiria a psicanálise. Ele teve a condição de continuar o cerne da descoberta freudiana, que é o de permitir a cada pessoa saber qual é a sua forma particular de desejar, de amar, sem ser obrigado a entrar nessa plastificação do mundo atual.

ISTOÉ – Por que fazer uma análise lacaniana?
Forbes – Análise lacaniana é a mais compatível com o sujeito pós-moderno. Nós estamos vivendo uma época na qual existe uma horizontalidade maior entre as pessoas – diferente da era anterior, em que tínhamos modelos piramidais de organização. O sujeito pós-moderno tem uma forma de significação que ultrapassa a ordem paterna. E foi Lacan que propôs a condução de uma análise além do Édipo, além do modelo freudiano típico e, portanto, mais compatível com o sujeito pós-moderno.

ISTOÉ – O sr. conheceu Lacan. Que impressão teve dele?
Forbes – Conheci-o com 75 anos. Era impressionante o vigor e a vontade de ir além. Dava a impressão de que não perdia um momento na vida. Era uma pessoa muito receptiva, do jeito dele. Mesmo muito famoso, bastava telefonar e ele te recebia. Qualquer ambiente em que entrasse, se fazia imediatamente notar, mesmo que não abrisse a boca. Era um analista o tempo todo.

ISTOÉ – O tempo da sessão virou o grande cavalo de batalha da psicanálise lacaniana. Algumas dessas sessões, por sinal caríssimas, duravam segundos. O que é mito e o que é verdade?
Forbes – Ah, essa é uma crítica sempre repetida. Tem até uma historiadora conhecida que afirma em artigos que Lacan teria diminuído o tempo da sessão porque tinha muita gente na sala de espera. Vejo essas declarações com certo desalento. Não basta conhecer história. É preciso conhecer psicanálise para se falar dela. O tempo de uma sessão para Lacan é fundamental, faz parte da própria análise. As decisões que uma pessoa toma têm sempre o tempo como um dado do próprio problema. Portanto, mais ou menos tempo, muda o dado e assim muda a conclusão.

ISTOÉ – Por que a análise é cara?
Forbes – As pessoas acham caro porque elas estão acostumadas a pensar o uso do dinheiro na relação custo/benefício. E é muito difícil medir quanto você investe em uma análise tendo esse termômetro. Se você vai a um médico e tem um nariz feio e ele diz “você me paga R$ 1 mil e eu o transformo”, você tem uma relação clara de custo/benefício. Quando você vai para uma análise, o termômetro não é nem padronizado nem exterior. As pessoas se embaralham. E esse embaralhamento é utilizado na análise. Portanto, tal qual o tempo, o pagamento é um fator que o profissional utiliza como instrumento terapêutico. Um dos objetivos é que cada um ponha em questão seu referencial de valor. E o dinheiro é um dos parâmetros nos quais a questão do valor caminha.

ISTOÉ – O Brasil tem uma das melhores escolas de psicanálise do mundo. O brasileiro precisa de análise?
Forbes – O brasileiro ama o seu inconsciente. Isso explica por que o Brasil é um dos países no qual a psicanálise é mais desenvolvida. Uma das qualidades do povo brasileiro é de não se levar muito a sério. Ele tem sempre uma certa desconfiança, sadia e gaiata. Essa qualidade é que o faz sensível às formações do inconsciente. A psicanálise vai mal em países totalitários. Por isso, a Alemanha nazista a baniu. Menos seriamente, sociedade na qual todos gostam do mesmo queijo não é lugar para a psicanálise.

ISTOÉ – Essa desconfiança gaiata é que faz o brasileiro encarar com bom humor certas angústias que o afligem?
Forbes – Um ditado popular diz que o brasileiro não se preocupa muito com a sua história porque amanhã ela irá se transformar em enredo de escola de samba. A identidade do brasileiro está voltada para o futuro e não para o ontem. Ele acredita no futuro. Essa qualidade minora as dificuldades que enfrenta no dia-a-dia. Quando bem usado, é um de seus tesouros.

ISTOÉ – O sr. fez referência ao homem pós-moderno. Qual é a posição dele na nova organização social?
Forbes – A globalização está provocando mudanças em homens e mulheres. Antes, as pessoas buscavam pertencer a grandes corporações ou ter profissões reconhecidas como de “doutor”: médico, engenheiro ou advogado. Hoje, não é mais isso que se espera. Não é uma honra ficar no mesmo emprego e o leque profissional é muito mais amplo. A globalização pulverizou os ideais, exigindo a cada um se defrontar com a angústia da escolha: será que você quer realmente o que deseja?

ISTOÉ – Então a globalização pode ser benéfica ao indivíduo...
Forbes – Cada pessoa tem mais chance de provar a que veio. De inovar. Ao mesmo tempo sofre mais com isso. Não há mais um caminho definido. Isso está causando uma epidemia de depressão. O homem está desbussolado. O problema é saber o que ele realmente quer. Como Freud dizia, não existe uma organização social perfeita. Quando a sociedade muda, você tem novas soluções e novos problemas. Antigamente, o jovem dizia que não tinha liberdade de escolha. Hoje, ele tem essa liberdade e se sente perdido. Por não saber o que fazer, acha que tudo o que faz é pouco. E quando chega a essa conclusão, se deprime ou se droga. Mas é bom lembrar que os próprios jovens nos indicam soluções. A música eletrônica e os esportes radicais surgem como novas formas de lidar com o mundo moderno.
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