quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

FIM DE ANO: palavras para refletir...

por Débora Laks*

Dezembro marca o encerramento do ano e o planejamento do que está por vir. Tempo de expectativas e decepções; intenso movimento e alguns intervalos para reflexão. O fato é que o fim de ano significa término e começo; etapas estas enfrentadas com dificuldade, visto que afloram emoções ambíguas.O final conduz a um balanço interno no qual, geralmente, respeitando as singularidades, verifica-se um saldo positivo, de satisfação; mas também um resultado negativo, que impõe a difícil tarefa de suportar as frustrações. Já o começo funda esperanças e novas metas. Resta, então, a incerteza: seremos capazes, neste novo ano, de alcançar nossos desejos?O imaginário popular retrata esta época de tantos sentimentos através de letras de música. Sublime criatividade coletiva que abrange em versos e melodias aquilo que está implícito na vivência. É hábito para muitos se despedirem do ano que termina com a música Fim de Ano, de autoria de Francisco Alves e David Nasser: "Adeus ano velho, feliz Ano-Novo, que tudo se realize no ano que vai nascer...". Também cabe lembrar os ditados populares, perpetuados através dos tempos e sempre atuais: "Quem canta seus males espanta".Percebe-se que este período inspira ditados populares, letras de músicas e, enfim, palavras! O que seria dos relacionamentos sem elas?Freud, o "pai" da psicanálise, em sua obra Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, escrita por volta de 1915, faz referência às palavras para defender o método de tratamento que propôs. Argumenta: "Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero... Palavras suscitam afetos e são, de modo geral, o meio de mútua influência entre os homens".Diariamente comprovo como psicoterapeuta o fascínio que as expressões causam. No consultório, os estados psicológicos dos pacientes são revelados pelas palavras, e advém delas a possibilidade de intercâmbio nas relações, sejam elas cotidianas ou de terapeuta-paciente. Ao perceber que alguém está tentando compreendê-lo, o indivíduo tem, na maioria das vezes, sua aflição amenizada. O ser humano tende a progredir se relacionando, pois assim articula o que se passa em seu interior.Nesse contexto, a relação mãe-bebê é lembrada como simbolismo do começo da vida. É através dela que se desenvolve o ser humano e o seu potencial para futuras relações, sinalizando o futuro da humanidade.Ora, se as palavras são tão valiosas, talvez possam fazer parte de algumas das transformações tão sonhadas para o novo ano. Que, ao serem pronunciadas, elas transpareçam o mais profundo de cada pessoa! Se as conversas forem imbuídas de sinceridade e consciência, justamente será introduzido no "mundo" do outro o que era só "meu". Recorrendo outra vez às composições, cito Raul Seixas, com o arranjo Prelúdio: "Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade".




*Psicóloga

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

CRIADOR DA TERAPIA COMUNITÁRIA EM FLORIANÓPOLIS

O psiquiatra, antropólogo e professor Adalberto Barreto, Doutor em Psiquiatria pela Universidade René Descartes (Paris/França) e Professor de Medicina Social da Universidade Federal do Ceará, estará em Florianópolis para uma série de atividades durante o mês de outubro de 2009. Dr. Barreto é uma das maiores autoridades brasileiras no campo da Saúde Pública,da Saúde Mental e do movimento social e comunitário. A Terapia Comunitária, criada por ele há mais de vinte anos dentro de uma das favelas de Fortaleza (CE), foi adotada pelo Ministério de Saúde e incorporada às ações do SUS e da Programa de Saúde da Família. ATIVIDADES DO DR. BARRETO FRANQUEADAS AO PÚBLICO:
Roda de Terapia Comunitária: dia 28/10, às 11h, no vão central do Mercado Público Municipal
Palestra "A Prevenção do uso de Drogas e a Terapia Comunitária": dia 28/10, às 19hs, no Plenarinho da Câmara de Veradores, na Rua Anita Garibaldi, 35 (ao lado da Catedral)
CURSO DO DR. BARRETO ABERTO A TODOS OS INTERESSADOS:
Workshop "Cuidando do Cuidador", nos dias 29 e 30/10, na Casa de Retiros Vila Fátima, no Morro das Pedras. Este curso visa capacitar psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais, educadores, terapeutas, agentes comunitários de saúde, gestores, líderes comunitários ou religiosos e outros líderes e profissionais para atuarem em suas comunidades e instituições, na perspectiva de reforço da auto-estima, pela valorização de autoconhecimento como recurso de transformação pessoal e social. O curso será em regime de imersão e serão trabalhados temas como os pilares da auto-estima; o estresse e as tensões; o centramento do corpo e da mente; o resgate da criança interior e a integração do masculino e do feminino. O valor do investimento é de R$ 450,00 para inscrições até 23/10/09 e R$ 600,00 para inscrições após 23/10/09 (hospedagem e alimentação incluídos). Para maiores informações ou para fazer sua inscrição acesse este link:
http://www.caifcom.com.br/teia/
APÓS O WORKSHOP APROVEITE PARA ESTICAR O FERIADÃO EM FLORIPA, POIS DIA 02/11, SEGUNDA-FEIRA, É FERIADO. O MORRO DAS PEDRAS É UM LUGAR PARADISÍACO E A CASA DE RETIROS VILA FÁTIMA TEM PREÇOS IMBATÍVEIS. ENTRE EM CONTATO DIRETO COM A CASA DE RETIROS PARA COMBINAR HOSPEDAGEM NO FERIADÃO. Contato: www.casaderetiros.com.br ou (48) 3237 9141.OUTRAS INFORMAÇÕES SOBRE A PROGRAMAÇÃO DO DR. BARRETO OU SOBRE A TERAPIA COMUNITÁRIA:
Entre em contato com a Teia Solidária (Pólo Catarinense de Terapia Comunitária), através dos seguintes canais:
Fone: (48) 8456-8872
E-mail:
teiasolidariasc@yahoo.com.br
Site:
www.teiasolidaria.org

Hamlet no divã de Freud

INTRODUÇÃO
Édipo: Enigmas! Sempre enigmas!
Tirésias: Então não és aquele que decifra qualquer enigma?
O objeto deste artigo é a notória tragédia de autoria de William Shakespeare, Hamlet, o príncipe da Dinamarca, e as construções psicanalíticas que este provocou em Sigmund Freud. Abrimos, citando acima Édipo, visto ser a este que Freud, reiteradamente, se referenciará, quando da(s) análise(s) de Hamlet.
No campo da psicanálise, outras abordagens a Hamlet foram empreendidas, dentre as quais destacamos a do contemporâneo, colaborador e biógrafo de Freud, Ernest Jones, Hamlet e o complexo de Édipo(2); na França, Jacques Lacan, que em seu seminário de 1958/59, intitulado O desejo e sua interpretação, tratou do tema hamletiano (do qual um excerto foi publicado no Brasil como Hamlet por Lacan(3); no Chile, de Felipe Pimstein, Hamlet, anatomia de la ambigüedad(4), em que o autor considera que o diagnóstico de ?abulia específica? não resolve a antinomia hamletiana e opina que Hamlet sofre de melancolia, evidentemente orientado pela abordagem de Melanie Klein; e, no Brasil, o livro de Eustáchio e Clara Helena Portella Nunes, Freud e Shakespeare(5), onde entre muitos dos personagens de Shakespeare, também trabalham Hamlet emuma perspectiva freudiana; e o de Hórus Vital Brasil, que, também, em seu Dois ensaios entre psicanálise e literatura(6), realiza uma análise de Hamlet de um ponto de vista psicanalítico.Em nossas pesquisas bibliográficas, para este trabalho, também nos defrontamos com as obras de M. A. A. J. A. Waldock, Hamlet - a study in a critical method (7), para quem "a play is not a mine of secret motives" (8), e a hesitação em Hamlet é devida ao fato de que Hamlet "fears that if he murders his uncle it may be, deep in his heart, for his own ends. So, hedelays."(9); de Dyson Wood, Hamlet from a psychological point of view(10), onde o autor considera que o conflito em Hamlet é devido a uma juvenil e passageira "reflective indecision"(11); de Margarita Quijano, Hamlet y sus críticos(12), onde a autora decide que a indecisão de Hamlet em cumprir o mandato de seu pai "no es uno de los temas de la obra" (13); e a interessante e enciclopédica compilação realizada por Claude Williamson, Readings on the character of Hamlet(14), na qual são reunidos mais de trezentos textos críticos, dos mais diversos autores, sobre Hamlet, que abrangem o período de 1661 a 1947.Pensamos que o Príncipe Hamlet, ao lado do Rei Édipo e dos Irmãos Karamassovi (não incluindo Fausto, por este estar referido a outras questões), são os personagens da literatura que mais importância têm, com respeito à concepção edípica, na obra freudiana; pois como o próprio Freud aprecia,Dificilmente pode dever-se ao acaso que três das obras-primas da literatura de todos os tempos 3?4 Édipo Rei, de Sófocles; Hamlet, de Shakespeare; e os Irmãos Karamassovi, de Dostoievski 3?4 tratem todas do mesmo assunto, o parricídio. Em todas as três, ademais, o motivo para a ação, a rivalidade sexual por uma mulher, é posto a nú.(15)Neste trabalho, em função da invasão da teoria psicanalítica nas mais variadas áreas de produções humanas, buscaremos ver o alcance possível da chamada ?psicanálise aplicada?, da ?psicanálise em extensão?, ver até onde é possível se ir com a análise psicanalítica de uma obra literária. Pois, como Freud coloca, "desde a época em que foi escrita A interpretação de sonhos, a psicanálise deixou de ser um assunto puramente médico."(16)NO DIVÃ DE FREUD...o conflito em Hamlet está tão eficazmente oculto que coube a mim desenterrá-lo.(17)A primeira referência que temos de Freud a Hamlet, em um contexto teórico, é encontrada em uma carta, de 15 de outubro de 1897, endereçada a Fliess. Nesse momento Freud está em plena ?auto-análise? (com Fliess no lugar do analista), e, em meio a miríade de idéias que estavam a lhe surgir, diz a este que "um único pensamento de valor genérico revelou-se"(18), pensamento este que diz respeito ao, posteriormente denominado 3?4 logo após suas conferências nos Estados Unidos na Clark University, quando é então chamado por "complexo nuclear de cada neurose", por "complexo central" e por "complexo do incesto"(19) 3?4 como "complexo de Édipo"(20). Freud, na carta citada, coloca que "descobri, também em meu próprio caso, [o fenômeno de] me apaixonar por mamãe e ter ciúmes de papai, e agora o considero um acontecimento universal do início da infância."(21)Esse pensamento referente à questão edípica já havia se esboçado, cinco meses antes, em um rascunho anexo a uma outra carta endereçada também a Fliess em 31 de maio de 1897, quando Freud aponta "sobre os impulsos hostis contra os pais (o desejo de que morram)"(22), colocando que, "ao que parece, é como se esse desejo de morte se voltasse, nos filhos, contra o pai e, nas filhas contra a mãe."(23)Vemos que essas idéias quanto ao desejo de morte parental precederam a queda da sedução criminal como fator etiológico específico da histeria(24), como enunciada na carta, quatro meses após, em 21 de setembro de 1897, na qual Freud diz a Fliess que "não acredito mais em minha neurótica"(25). Mas a correlação dessas idéias com Oedipus Rex e com Hamlet, como dissemos no início, surge menos de um mês depois, na carta de 15 de outubro de 1897. Quanto ao fascínio, ao poder de atração da tragédia de Édipo, coloca Freud que(...) a lenda grega capta uma compulsão que todos reconhecem, pois cada um pressente sua existência em si mesmo. Cada pessoa da platéia foi, um dia, um Édipo em potencial na fantasia, e cada uma recua, horrorizada, diante da realização de sonho ali transplantada para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do estado atual.(26)Essa compulsão que todos reconhecem na tragédia do destino de Édipo, Freud também a vislumbra no destino, não menos trágico, de Hamlet. Como diz Freud,A partir da compreensão dessa tragédia do destino só restava um passo para compreender uma tragédia de caráter ? Hamlet, objeto de admiração por trezentos anos, sem que seu significado tivesse sido descoberto ou os motivos de seu autor advinhados.(27)Pensa então Freud que um acontecimento real na vida de Shakespeare o tenha impulsionado a representá-lo em Hamlet. A questão da hesitação em Hamlet em vingar o assassinato de seu pai, perpretado pelo irmão deste, se constitui para Freud como passível de receber uma explicação, a partir da teoria psicanalítica. Freud considera que a hesitação de Hamlet quanto a esta tarefa 3?4 ao ser contraposta a sua ausência de escrúpulos, ao mandar seus cortesãos à morte, ao matar Polônio, e, ao lançar-se a um embate mortal com Laertes 3?4 só poderia ser explicada pela "obscura lembrança de que ele próprio havia contemplado praticar a mesma ação contra o pai, por paixão pela mãe"(28). A hesitação de Hamlet é devida ao seu sentimento inconsciente de culpa, que Freud encontra na fala de Hamlet a Polônio no Ato II, Cena II: "Use every man after his desert, and who should scape whipping?"(29), traduzido por "se tratarmos as pessoas como merecem, nenhuma escapa ao chicote."(30)Segundo o diagnóstico de Freud, Hamlet seria um histérico, e isso se evidenciaria em "sua alienação sexual, no diálogo com Ofélia"(31). Este diálogo, o qual não é explícitamente indicado por Freud, pensamos ser este, do Ato III, Cena I, que segue :Hamlet: Get thee to a nunnery; why wouldst thou be a breeder of sinners? I am myself indifferent honest; but yet I could accuse me of such things that it were better my mother had not borne me. I am very proud, revengeful, ambitious, with more offences at my beck that I have thoughts to put them in, imagination to give them scape, or time to act them in. What should such fellows as I do crawling between earth anf heaven? We arre arrant knaves, all; believe none of us. Go thy ways to nunnery. Where?s your father?Ophelia: At home, my lord.Hamlet: Let the doors be shut upon him, that he may play the fool no where but in?s own house. Farewell.Ophelia: O, help him, you sweet heavens!Hamlet: If thou dost marry, I?ll give thee this plague for thy dowry: be thou as chaste as ice, as pure as snow, thou shalt not scape calumny. Get thee to a nunnery, go. Farewell. Or, if thou wilt needs marry, marry a fool; for wise men know well enough what monsters you make of them. To a nunnery, go, and quickly too. Farewell.Ophelia: O heavenly powers, restore him! Hamlet: I have heard of your paintings too, well enough. God has given you one face, and you make yourselves another. You jig, you amble, and you lisp, and nickname God?s creatures, and make your wantonness your ignorance. Go to, I?ll no more on?t; it hath made me mad. I say, we will have no more marriages. Those that are married already, all but one, shall live; the rest shall keep as they are. To a nunnery, go. [Exit(32)Traduzido por:Hamlet: Vai prum convento. Ou preferes ser geratriz de pecadores? Eu também sou razoavelmente virtuoso. Ainda assim, posso acusar a mim mesmo de tais coisas que talvez fosse melhor minha mãe não me ter dado à luz. Sou arrogante, vingativo, ambicioso; com mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los. Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra? Somos todos rematados canalhas, todos! Não acredite em nenhum de nós. Vai, segue pro convento. Onde está teu pai?Ofélia: Em casa, meu senhor.Hamlet: Então que todas as portas se fechem sobre ele, pra que fique sendo idiota só em casa. Adeus.Ofélia: (À parte.) Oh, céu clemente, ajudai-o!Hamlet: Se você se casar, leva esta praga como dote: Embora casta como o gelo, e pura como a neve, não escaparás à calúnia. Vai pro teu convento, vai. Ou, se precisa mesmo casar, casa com um imbecil. Os espertos sabem muito bem em que monstros vocês os transformam. Vai prum conventilho, um bordel: vai 3?4 vai depressa! Adeus.Ofélia: Ó poderes celestiais, curai-o!Hamlet: Já ouvi falar também, e muito, de como você se pinta. Deus te deu uma cara e você faz outra. E você ondula, você meneia, você cicia, põe apelidos nas criaturas de Deus, e procura fazer passar por inocência a sua volúpia. Vai embora 3?4 chega 3?4 foi isso que me enlouqueceu. Afirmo que não haverá mais casamentos. Os que já estão casados continuarão todos vivos 3?4 exceto um. Os outros ficam como estão. Prum bordel 3?4 vai! (Sai.)(33)Outras indicações da histeria de Hamlet seriam a transferência do ato assassino do seu pai para o pai de Ofélia, e a sua auto-punição no final trágico, sanguinolento e devastador.Esta mesma linha de construções é encontrada em A interpretação de sonhos, quando Freud aborda os chamados ?sonhos típicos?, dentre os quais se destacam os ?sonhos sobre a morte de pessoas queridas?, quando Freud volta a abordar Édipo, o rei de Tebas e Hamlet, o príncipe da Dinamarca.Sobre o Oedipus Rex de Sófocles, Freud tece observações que adjetivaríamos como uma crítica de estética literária, ao colocar, em primeiro plano, a eficácia estética de Édipo, estética no sentido de captação e desenvolvimento de (novos?) processos psíquicos. Freud diz que, para além do plano trágico, no sentido de ser uma tragédia do destino, ou seja, da consecução determinista dos desígnios dos deuses em detrimento da vontade do protagonista, está na peça a existência de um desígnio, uma compulsão, universal na experiência dos homens. "...o destino nos comove sòmente porque poderia ser o nosso 3?4 porque o oráculo lançou a mesma praga sobre nós antes de nascermos, como sobre ele."(34)Essa ?praga?, no dizer de Freud, "é o destino de todos nós, talvez, dirigir nosso primeiro impulso sexual no sentido de nossa mãe e o nosso primeiro ódio e nosso primeiro desejo assassino contra nosso pai."(35). Sendo assim, a saga de Édipo, assassinando seu pai e casando com sua mãe, é a realização dos desejos infantis humanos, que foram recalcados. O outro aspecto que nos assemelha a Édipo é a ignorância quanto a essas fantasias.Freud também apresenta uma analogia entre o progressivo desvelamento da verdade de Édipo, no transcorrer da ação da peça, realizado por Sófocles, e o que ocorre em uma psicanálise, onde a proposta é a de um trabalho de desvelamento progressivo da verdade do sujeito.Mas, retornando a Hamlet, Freud coloca que neste estamos perante as mesmas determinantes que norteiam (ou desnorteiam) Édipo, ou seja, os impulsos incestuosos-parricidas. Só que em Hamlet, em função do avanço do recalque que ocorreu no largo intervalo de tempo que separa as duas produções literárias (pois, para Freud, o avanço da civilização é concomitante a uma amplitude do recalque, ou seja, quanto mais civilização, mais recalque, e, com isso, mais mal-estar na civilização), esses impulsos permanecem recalcados; enquanto, em Édipo, a fantasia infantil é realizada, isto é, Édipo realmente mata o pai e casa-se com a mãe, a tragédia de Hamlet, em função do recalque, se apresenta ao modo de uma neurose; em Hamlet o enigma não recebe resposta, o caráter do herói permanece enigmático.O traço de caráter que é o sintoma principal em Hamlet é, como já vimos, a sua hesitação em realizar a vingança da morte de seu pai, matando seu tio fratricida que se tornou seu padastro, ao casar-se com sua mãe (esse aspecto do enredo, o de que Claudius esteja no lugar do pai, ou seja, a questão do desejo da mãe, é apontada como central e desenvolvida por Lacan em seu trabalho acima citado)(36). Freud coloca que, em suas falas, Hamlet não apresenta "quaisquer razões ou motivos para essas hesitações e uma imensa variedade de tentativas de interpretá-las deixou de produzir qualquer resultado."(37). Dentre essas tentativas de interpretação da hesitação de Hamlet, Freud se refere primeiramente à de Goethe, que considera como a predominante em seus dias. Freud coloca que segundo Goethe, Hamlet "representa o tipo de homem cujo poder de ação direta é paralisado por um desenvolvimento excessivo de seu intelecto"(38). A segunda interpretação que é citada por Freud é a que concebe Hamlet como o resultado da tentativa de Shakespeare de "retratar um caráter patológicamente irresoluto, que poderia ser classificado como neurastênico."(39)A essas duas interpretações, Freud contrapõe duas situações que se apresentam no enredo da peça, em que se mostra Hamlet capaz de ação. A primeira dessas situações é, quando Hamlet trespassa Polônio com sua espada; a segunda é, quando manda os cortesãos Rozencrantz e Guildenstern à morte, que havia sido planejada para ele mesmo, Hamlet.Para Freud, a razão da hesitação de Hamlet em vingar seu pai, continua sendo o fato de seu tio ter realizado uma ação que havia sido desejada pelo próprio Hamlet quando de sua infância. Com isso, o ódio sentido pelo tio-padrasto é "substituído por auto-recriminações, por escrúpulos de consciência, que o fazem lembrar que êle próprio, literalmente, não é melhor que o pecador que deve punir."(40)Freud diz que esta construção psicanalítica é uma tradução em termos conscientes do que "se destinava a permanecer inconsciente na mente de Hamlet"(41), e reitera o diagnóstico, que já havia sido proferido na carta de 15 de outubro de 1897, de histeria, evocando a cena de Hamlet com Ofélia, que pensamos ser a apresentada acima, em que Freud percebe um "desagrado pela sexualidade"(42).Freud, seguindo sua análise, busca escutar, através das falas de Hamlet, Shakespeare. Atribui a este essa mesma aversão pela sexualidade encontrada em Hamlet, aversão esta que se apresentaria crescente no transcorrer da sua obra e que teria alcançado o seu clímax em Tímon de Atenas. Freud se debruça sobre a biografia de Shakespeare (quando ainda não questionava a sua autoria e mesmo a sua existência), e passa a fazer considerações, correlações entre os eventos da sua vida e os resultados na sua obra. Freud assinala que Hamlet foi escrito logo após a morte do pai do poeta (1601), e deduz disso que o momento da criação de Hamlet foi subseqüente ao tempo em que Shakespeare estava a reviver os seus sentimentos, suas fantasias infantis quanto ao seu pai. Freud também correlaciona o nome do herói, Hamlet, com o nome do filho de Shakespeare, Hamnet, que teria morrido precocemente. Em ambos os casos, temos implicações advindas das relações entre pais e filhos, e Freud observa também que, em Macbeth, escrita no mesmo período (1605-1606), encontra-se o tema da "falta de filhos"(43).Freud conclui esta análise de Hamlet, alegando que do mesmo modo que os sintomas neuróticos e os sonhos, as obras dos escritores verdadeiramente criativos possibilitam ?super-interpretações?, ou seja, todos esses fenômenos são produções de mais de um impulso na mente (tanto na do poeta, quanto na do neurótico comum), e "estão abertos a mais de uma interpretação isolada"(44). Mas, apesar dessas circunstâncias, Freud diz que apenas tentou "interpretar a camada mais profunda dos impulsos na mente do criativo escritor"(45), ou seja, a interpretação de Freud, imodestamente, é mais profunda que a interpretação de seus antecessores.Mas, posteriormente, Freud vem a desacreditar da autoria de Shakespeare, e passa a supor que o nome William Shakespeare é um pseudônimo usado por um Conde de Oxford chamado Edward de Vere; mas este último também teria sofrido um ?trauma hamletiano?, ou seja, teria perdido "um pai amado e admirado quando ainda era menino e repudiou completamente a mãe, que contraiu um nôvo casamento logo depois da morte do marido."(46)Porém, independentemente de questões sobre autoria, para Freud, (...) a análise confirma tudo o que a lenda descreve. Mostra que cada um desses neuróticos também tem sido um Édipo, ou, o que vem a dar no mesmo, como reação ao complexo, tornou-se um Hamlet.(47)O que podemos concluir no momento é que a importância de Hamlet, no contexto psicanalítico freudiano, não é de pouca monta; a decifração do enigma de Hamlet, a ?descoberta? de Freud dos sentidos da hesitação hamletiana, significou para ele como o equivalente a um ?ovo de Colombo? no campo da literatura; uma angústia de três séculos foi enfim dissolvida por Freud através da teoria psicanalítica 3?4 segundo ele mesmo. Enfim a sofrida hesitação de Hamlet recebeu um sentido plausível. Como Freud diz:(...) tenho acompanhado de perto a literatura psicanalítica e aceito sua pretensão de que somente depois de ter tido o material da tragédia sua origem remontada pela psicanálise ao tema edipiano é que o mistério de seu efeito foi por fim explicado.(48)
Marcos Chedid Abel
Psicanalista. Mestre (monografia O trauma na etiologia das neuroses em Freud) e Doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade de Brasília

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

DERRIDA OU DESCE

Detesto ter que voltar a esse assunto, mas, dessa vez, os partidários de Bill Clinton exageraram.
O exagero veio no mesmo jornaleco que se tornou a principal tribuna de defesa do presidente criminoso por aqui: o Jornal do Brasil. Mais especificamente, o caderno Bordéias, perdão, Idéias de 16/01/99. Trata-se de uma pérola produzida por um "ensaísta" (em nossos tempos, quem quer que escreva dois artigos em jornal já é "ensaísta", de Carmen Mayrink Veiga a Emir Sader) do Los Angeles Times.
Uma palavrinha sobre o L. A. Times: é a "Caros Amigos" em versão jornal. O órgão oficial da patota. Dá cobertura a todo tipo de bobagem que os leitores puderem imaginar, como artistas performáticos cuja arte consiste em introduzir objetos no próprio ânus e defensores das teorias malucas da moda, como o desconstrucionismo.
Pois é o desconstrucionismo o tema do artigo do nobre ensaísta – autor, segundo o próprio JB, de um livro chamado An empire of their own: How the Jews invented Hollywood, o que me parece meio anti-semita (mas logo veremos que, segundo o próprio autor, isso não quer dizer nada).
O título já é bem sugestivo: O que Derrida tem a ver com Lewinsky? E é exatamente isso que o autor vai tentar explicar.
O desconstrucionismo, para os que não sabem, é a tese muito peculiar de certos autores franceses segundo a qual os textos não querem, em si mesmos, dizer nada, mas o leitor é que deve preencher-lhes o sentido. Quando Machado de Assis escreveu Dom Casmurro, ele não estava, por conta própria, querendo dizer coisa nenhuma. Jacques Derrida é que, quando lê Dom Casmurro, inventa um sentido pro que Macharo escreveu. Não só Derrida, como todos nós outros: todos somos muito mais inteligentes que Machado, aquela besta que não tinha o que fazer e resolveu fazer livros para não dizer absolutamente nada.
Ora, que um francês resolvesse dizer que não é capaz de entender o que os autores dizem, tudo bem. Quando ele resolve estender essa confissão de burrice para toda a humanidade, já começa a ficar chato. Mas vejam só o que o ensaísta do L.A.Times e, agora, do JB, escreve:
"Se o desconstrucionismo tivesse se confinado nos departamentos de Inglês das universidades, ela poderia ter servido apenas como mais uma ferramenta analítica. Mas os partidários mais radicais da desconstrução compreenderam que sua teoria trazia graves conseqüências não apenas para a literatura, mas para a própria noção de realidade. Se nada era objetivo, então o mundo inteiro era subjetivo. As pessoas no máximo concordavam com as convenções que tornam possível uma comunicação entre elas. Mas essas conveniências eram mitos."
Isto é: depois que um francês se confessou um idiota completo que não entende o que lê e disse que todos nós também o somos, outros idiotas resolveram dizer que são incapazes de entender a própria realidade que os cerca. Se um cachorro morde um desses "desconstrucionistas radicais", ele vai dizer que a dor da mordida é apenas uma "convenção". A própria presença desse computador aqui na minha frente é apenas subjetiva. Eu acho que ele está, Derrida acha que ele não está, alguns outros até preferiam que ele não estivesse e, por causa disso, ainda estão meio em dúvida...
E os carros buzinando, aqui, ao fundo, talvez não estejam mesmo buzinando: nós todos apenas "convencionamos" que, quando alguém que não sabemos bem se existe aperta a buzina de um carro que ele apenas acha que está ali na frente dele e imagina produzir um som, todos vamos também imaginar ouvir esse som e dizer que ele corresponde ao som da buzina de um carro.
Claro que tudo isso parece uma imensa sacanagem. Ninguém pode assumir uma tese dessas a sério, de cara limpa. Mas essas sacanagens às vezes têm um belo efeito político. Vejam só:
"Quando Clinton foi acusado de se refugiar em tecnicalidades e detalhes legais para salvar sua pele, ele estava na verdade se refugiando numa visão desconstrucionista da realidade. Não havia, ele insistiu, nenhuma definição única de relação sexual. Na verdade havia uma série de definições, que tornaram toda a idéia de relação sexual completamente subjetiva. A definição de Clinton foi tão boa quanto a de qualquer outro."
Ou seja: embora todos nós saibamos perfeitamente quando é que temos ou não "relações sexuais" com alguém, o presidente Bill Clinton tem todo o direito de fingir não sabê-lo. O motivo? Ah, esse negócio de relações sexuais é subjetivo.
Esse é o tipo de teoria estúpida e intelectualmente desonesta que só serve para excusar falhas de aliados políticos. Imaginem, por exemplo, que o autor do ensaio chegue a casa um dia e encontre sua mulher tendo – digamos assim – "relações sexuais" com uns dois ou três outros caras. Se ela lhe disser que ela não está tendo "relações sexuais", mas apenas que ele acha que ela está, qual será a reação do nosso ensaísta? Será que vai também se juntar aos outros caras, e todos continuarão achando que estão fazendo alguma coisa ali, quando na verdade esse negócio de sexo é apenas "convencional"? Será que vai aplaudir a esposa, por ter encontrado mais uma definição de "relação sexual"?
Ora, para esse ensaísta – e para os descontrucionistas – as palavras não querem dizer nada. Esquecem-se de que as palavras são símbolos de alguma coisa, se referem a algo que realmente existe, se o sujeito diz a verdade, e não existe, se o sujeito está mentindo. Mas a possibilidade de averiguarmos se um sujeito mente ou não vem do simples fato de que nós também conhecemos as coisas a que se referem as palavras. Essa base comum da comunicação não é uma convenção, mas algo estruturado na própria realidade. Se alguém fala em "relações sexuais", todos nós sabemos o que elas são, e o sabemos porque elas realmente existem.
Alguém pode não saber o que são "relações sexuais", mas não pode esperar que sua própria ignorância seja universalizada, muito menos pretender que o nível mental de todo o resto da população se nivele com o dele. Alguém pode até propor novas definições de "relações sexuais", mas a que vai valer na vida diária (e, no caso, a que vai valer no tribunal) é aquela imediatamente reconhecida pela generalidade das pessoas. E nós sabemos que essa definição faz sentido, sabemos por experiência própria.
Qualquer pessoa mediana sabe que a realidade existe mesmo, objetivamente, independente do que pensamos ou deixamos de pensar. E sabe pelo simples fato de que, se ela fosse inteiramente subjetiva, seríamos capazes de modificá-la com o nosso pensamento – e quem quer que tenha tentado sabe que é inútil.
Apesar disso, olhem só a barbaridade que o sr. Neal Gabler escreve:
"De um lado estão os republicanos, que em sua maioria parecem acreditar numa realidade objetiva e na moralidade absoluta. Pode parecer uma afirmação drástica, mas se eles agem freqüentemente como aiatolás iranianos, é porque eles pensam como aiatolás. Para eles, cada episódio define-se em preto e branco, certo e errado."
Vejam bem: qual é o crime dos republicanos? Por que, afinal, eles são "aiatolás" (esse novo xingamento que a esquerda atira em quem quer que lhe desagrade)? Simples: porque acreditam em verdadeiro e falso. Porque acreditam que os carros buzinando fora da minha janela são mesmo carros, que o computador está efetivamente na minha frente e que, se a mulher do sr. Gabler estivesse com outros três caras na cama isso definitivamente seria uma "relação sexual", não importa como ela quisesse chamar.
Os republicanos são, afinal, acusados de totalitários porque acreditam que, se um presidente, apesar de ter jurado cumprir e defender a lei, mente diante de um tribunal e usa seu poder para fazer que outras testemunhas mintam, esse presidente está desqualificado para o cargo. Noto, aliás, de passagem, que essas são as acusações mais brandas que existem contra Bill Clinton, junto com sérias denúncias de corrupção, favorecimento ilegal, traição e sociedade numa companhia que vendeu sangue contaminado para todo o Canadá.
É possível que também essas outras acusações o sr. Gabler pense que são fruto de um moralismo exacerbado, e da pretensão de achar que a realidade existe. Agora, notem que beleza o flanco aberto por essa mistura de Derrida e política: se a realidade objetiva não existe e qualquer definição é válida, por que é que alguém condenaria Stálin, Hitler, Mao, Pol Pot ou Salazar? Afinal, o que é uma morte, ou um assassinato: depende do ponto de vista, certo? Se ninguém, afinal, sabe ao certo o que é uma relação sexual (essa coisa tão comum), como é que alguém vai saber o que é um assassinato, um genocídio, um holocausto – coisas muito menos comuns e experimentadas por muito menos pessoas do que as relações sexuais?
Enfim, para o desconstrucionismo, vale tudo. Liberou geral. Mas, se olharmos de perto, não liberou tanto assim. Ora, se a realidade é fluida e todas as definições são válidas, por que é que as definições dos republicanos não valem, e as de Clinton sim? Isso, ele não explica.
Essa teoria, tal como defendida no ensaio do JB/L.A. Times, é daquelas que cortam os próprios pés. Afinal, se não existe realidade objetiva e se as palavras não querem dizer nada, como vamos entender a teoria descontrucionista – e, mais ainda, como pretender que ela seja verdadeira, e não a teoria que diz o oposto dela? Não são todas as visões válidas? Isso, em retórica, se chama retórica suicida. Em política, se chama falta de vergonha na cara. Porque o que o sr. Gabler está realmente dizendo é que alguns discursos são mais válidos do que outros – mesmo que esconda isso sob um pretexto relativista.
Assistimos, então, apenas à velha atitude esquerdista de perdoar tudo nos aliados e condenar os adversários por qualquer motivo que seja. Foi assim na ocultação dos crimes de Stálin, depois na ocultação dos crimes de Lênin, de Fidel Castro, de Guevara. Claro que Clinton não está no mesmo nível desses facínoras, mas o sentimento geral entre seus aliados é o mesmo. E o descontrucionismo é, certamente, uma excelente desculpa teórica para fazer isso, porque parece, à primeira vista, uma teoria séria e respeitável.
O texto de Gabler é bom no sentido de que poucos fariam isso com tanto descaramento como ele o faz, e porque revela para que realmente serve o desconstrucionismo e sua proposta de "liberou geral".
Mas, sinceramente, não entendo por que diabos temos que ouvir esse Neal Gabler. Será que já não basta de lixo importado? Já não bastam os "mestres" de Gabler, como Delleuze, Guattari, Derrida, Jameson etc.? Por que temos também que aplaudir o discípulo de todos esses misósofos? Quem diabos o JB acha que está interessado no que esse fulano tem a dizer – principalmente porque o que ele tem a dizer é só um amontoado de tolices? Será que já não está na hora de pararmos de aplaudir esses apóstolos do nada, e procurarmos filósofos realmente de valor? Será que já não é hora de o Brasil descobrir Xavier Zubiri, René Girard e Northrop Frye, e esquecer essas maluquices pós-modernas? Ou, se é para ficar com jornalistas americanos, por que Gabler em vez de Joseph Farah, Richard Grenier, Charley Reese ou Walter Williamson? Até quando seremos meros repetidores das bobagens da moda e ignoraremos tudo que se faz de valor? Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?
Não sei até quando Derrida e seus seguidores continuarão a nos encher o saco. Mas sei que a resposta para a pergunta que intitula o artigo de Gabler não foi respondida por ele, mas pode ser respondida por um trocadilho que José Guilherme Merquior usava para satirizar a penetração das teorias desconstrucionistas nas nossas universidades. A relação entre Clinton, Derrida e Lewinsky é mesmo na base do "Derrida ou desce"!

Fonte: autor anônimo (opinião crítica sobre a obra desconstrucionista de Derrida)


domingo, 27 de setembro de 2009

'Psicanálise é a medicina da alma do nosso século'



Especialistas refletem sobre a obra do pensador, 70 anos após a sua morte; leia aqui entrevista com Elizabeth Roudinesco; leia ainda, no 'Cultura', artigos de Joel Birman, Maria Rita Kehl, Sérgio Telles e Luiz Albeto Hanns
Andrei Netto, correspondente em Paris
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PARIS - Poucos intelectuais traduziram tão bem sua época como Sigmund Freud fez com o século 20. Em sua obra, estão expressas as bases de conceitos tão poderosos e, ao mesmo tempo, tão legíveis, que se tornaram parte do cotidiano com a velocidade característica de sua época. É o caso do inconsciente - um conceito já elaborado nos séculos 18 e 19 por autores como Leibniz e Edward von Hartmann. Reinterpretada por Freud, a ideia de que o que falamos pode ter significados ocultos que fogem à esfera da consciência e, portanto, ao nosso domínio, é hoje reconhecível por todos.


Resumir seu pensamento a esse conceito, porém, é limitar uma obra enérgica e influente, alerta Elisabeth Roudinesco. Psicanalista, historiadora, docente, escritora, discípula de Jacques Lacan, amiga de Jacques Derrida, Elisabeth é, aos 64 anos recém-feitos, um dos pensadores vivos mais importantes de sua área, a psicanálise - um dos legados de Freud à humanidade. Segundo a intelectual marxista, o médico neurologista convertido em gênio está por trás, de uma forma ou de outra, de todas as formas de emancipações vividas pela sociedade do século 20, das quais o feminismo e a liberação sexual são só dois exemplos evidentes.

Além de suas atividades acadêmicas, que a levam a viajar o mundo todo, Elisabeth, uma das intelectuais mais respeitadas da França, se mantém hiperativa como escritora. E no centro de seus interesses está Freud. Ele explicaria a efervescência da autora, que lançará dois novos livros - Histoire de la Psychanalyse en France (La Pochotèque) e Retour à la Question Juive (Albin Michel) - nos próximos dias.
Previsto para outubro, Em Defesa da Psicanálise (Jorge Zahar, 248 págs.) é o seu próximo lançamento no Brasil. Nessa obra, estão reunidos entrevistas e ensaios da autora inéditos no País. Organizados pelo psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge, os textos são de épocas diversas e abordam temas polêmicos: a falta de participação dos psicanalistas na vida pública, a homossexualidade, o antissemitismo e a ciência, além das conexões da psicanálise com a medicina e a filosofia. No livro, a resposta da autora para os que falam da morte da psicanálise é direta: "Que ilusão!"

Em 23 de setembro de 1939, Freud morria em Londres. Às vésperas do aniversário de 70 anos de seu desaparecimento, o Estado pediu ajuda a Elisabeth para esmiuçar a herança de um mestre. Em seu apartamento, em um quartier pequeno-burguês de Paris, na quarta-feira, foram registradas mais de duas horas de entrevista exclusiva. A seguir, sua síntese.

Estamos a 70 anos da morte de Freud. O que ainda é tão representativo em sua obra? Por que ele é uma referência para a própria humanidade?
Ele é o único a ter teorizado, assim como seus herdeiros, o que chamamos de inconsciente. Não falo do subconsciente nem do inconsciente dos psicólogos. Eu me refiro ao inconsciente, que pode ser traduzido pela noção de que, quando alguém fala, não sabe o que diz. Há milhões de exemplos concretos, como o ministro do Interior da França (Brice Hortefeux), que fez declarações racistas na semana passada. Conscientemente, ele não é racista. Inconscientemente, sim. Mas julgamos alguém por seu inconsciente? Sim, se ele é ministro. Mas, via de regra, não podemos enviar alguém aos tribunais por seu inconsciente. Podemos dizer: "Comporte-se!" Muitas pessoas são inconscientemente racistas e antissemitas. Quando não há lei, esses sentimentos se exprimem.

Está no inconsciente? É inexorável?
É inexorável. Freud dizia, com razão, que a única maneira de impedir o crime é a lei, a civilização. No fim do século 19, havia pessoas e governos pública e oficialmente racistas. Não era proibido.
Permita-me retomar a questão: por que Freud ficou marcado como o homem que sintetiza o século 20?
Porque ele aportou algo de novo. Ele estava no prolongamento da filosofia do sujeito. Ele trouxe explicações que a filosofia havia pensado, mas ele lhes deu um assento teórico. E isso não me surpreende. Além disso, Freud permite compreender os dois totalitarismos do século 20: o nazismo, sobre o qual pensou e anteviu melhor do que qualquer outro, e o comunismo, que não teve nada a ver com sua ideia original, com o marxismo. Os dois, aliás, são diferentes: o nazismo se inscreveu desde seu início, sabia-se o que esperar; o comunismo caminhou para o lado errado. Mesmo assim, Freud viu que ele não funcionaria. É verdade que ele era conservador, assim como muitos de seus herdeiros. Mas há muitos freud-marxistas, muitos freudianos de esquerda - que são os meus preferidos, aliás. Nessa época, psicanálise era uma teoria da regeneração do homem, da emancipação. Quatro coisas nasceram ao mesmo tempo: o sionismo, o último movimento de emancipação dos judeus; a psicanálise, que é a emancipação do inconsciente; o socialismo, a emancipação social; e o feminismo, a emancipação da mulher. Era um grande movimento. O século 20, como anteviu Freud, foi o triunfo do contrário - o que pode ser resumido no nazismo. Freud afirmou que o triunfo do contrário já estava lá, entre nós, naquela época. E disse ainda: "Atenção, eu sou a favor da emancipação, mas o homem é habitado pelo contrário disso." Eu creio que ele foi o único a dizê-lo. É um dos motivos pelos quais é o Homem do Século 20. Por outro lado, ele jamais abandonou a ideia do progresso. Freud foi um homem progressista. Contra Schopenhauer, contra os grandes conservadores de seu tempo, contra os que eram inteiramente pessimistas em relação ao progresso, acusando-o de não servir para nada, Freud disse: "Sim, ele serve." Foi por isso que eu o chamei, depois de Adorno e outros, como a "luz sombria", marcada pelo iluminismo, mas sem muitas ilusões. Esse vínculo, o fato de ter pensado a relação entre as duas coisas, o levou a pensar ao mesmo tempo que o pior e o melhor podem acontecer com o homem. Ele nunca foi antiprogressista, ao contrário do que se diz. Por tudo o que mencionei, ele está no centro dos dias de hoje. Você não pode pensar o sionismo, o feminismo, a liberação das mulheres, a transformação da família, sem passar por Freud em determinado momento.

Se Freud é o homem do século 20, qual é o seu lugar no século 21?
É o mesmo. A maioria dos psicanalistas tornou-se conservadora. Não 100%, mas a maioria é conservadora. Por quê? É uma de minhas grandes interrogações. Eu não o sou, e no Brasil eles são menos. Diria até que são menos na América Latina. Mas eles são conservadores por diversas razões. Os lacanianos não deveriam sê-lo, já que Lacan relançou o pensamento da rebelião, da contestação. A Internacional Freudiana tornou-se conservadora porque caiu na repetição do dogma. Eles não se renovaram, tornaram-se um movimento dogmático, centrado sobre a clínica e não sobre a reflexão a respeito da sociedade e do indivíduo. Além disso, cometeram o erro de dialogar demais com as ciências duras, ao crer que o debate sobre o cérebro e os neurônios era essencial. Sempre afirmei que esse debate não era essencial, porque o cérebro e os neurônios não precisam de psicanálise. Não há muito o que fazer com isso, senão dar medicamentos. Mas se a psicanálise se ocupa apenas disso, afastando-se das moeurs (expressão francesa para costumes), ela se torna conservadora, familiarista. Os psicanalistas se desinteressaram dos assuntos sociais. Foi assim que se tornaram conservadores.

Por que a psicanálise brasileira é menos conservadora?
A América Latina, e sobretudo o Brasil, é uma sociedade que espelha a Europa. Os psicanalistas brasileiros são ecléticos. Em alguns momentos são culturalistas, e nos chateiam com a sua brasilidade - não esqueça que houve na França a francilidade e na Alemanha a germanidade. Mas, fora isso, eles, como espelho da Europa, importaram conhecimento. Ao importar, misturaram-no. E o ecletismo dos brasileiros - mais do que dos argentinos, que são menos ecléticos - se formou pegando um pouquinho de Freud, um pouquinho de Lacan e por aí foi. Isso funciona porque questiona o dogmatismo. Eles desconstruíram, para empregar a expressão de Derrida, o dogma europeu.

Voltemos a Freud. Ele não avançou em dois domínios: as crianças e os psicóticos. Por quê?
Sim, ele avançou sobre o tema da infância. Ele nos deu a base da análise da infância. O que se pode dizer é que sua corrente não triunfou no mundo psicanalítico quando se fala em infância, e sim a de Melanie Klein. Nisso, estou completamente de acordo com você. Foi ela quem fundou a psicanálise da infância. No entanto, tudo isso é psicanálise. Ela engloba todas as correntes. Sobre os psicóticos, você tem razão. Freud não acreditava que seria possível analisar os psicóticos. Muito cedo, quando ele compreendeu que essa era a "Terra Prometida" - bem antes da aparição dos medicamentos -, quando ele percebeu que quase todos os seus discípulos eram psiquiatras e trabalhavam com a psicose, ele se desinteressou, embora não tenha desestimulado ninguém. É verdade que é um domínio muito problemático. A análise se faz para os neuróticos. A "cura" analítica funciona muito para os neuróticos, porque, como eles não se curam, se acomodam. E, como transformamos a neurose de fracasso em neurose de sucesso, a cura funciona. A psicanálise torna mais inteligente, mais corajoso, mais apto na sociedade. A psicanálise funciona muito bem. Entretanto, é verdade que não curamos bem a psicose, embora tenhamos nos desenvolvido muito nesse tema também. Os loucos hoje buscam na psicanálise um complemento, já que os psiquiatras só querem saber de medicamentos. Se não há a psicanálise, o paciente vira um legume, um morto em vida.

No início, com Freud, a psicanálise era um processo breve, rápido. Hoje, é o contrário, estende-se por anos, décadas às vezes. O que mudou?
Era rápido porque Freud fazia seis sessões por semana de uma hora. Era intensivo. Há também o fato de que estendemos a análise para domínios não previstos de início, o que a tornou mais difícil. Mudou-se a modalidade da cura, também. Há pessoas que precisam falar sempre, ao longo de sua vida. Mas é verdade que Freud ficaria chocado hoje. Duas vezes por semana, durante 10 anos? Não! Para Freud, era de seis meses a um ano, todos os dias, por uma hora. Quando não era possível, como Marie Bonaparte, tudo bem. Ela ficou 14 anos em análise.

Freud esforçou-se muito para dar à psicanálise o status de ciência, mas ela sempre esteve na alça de mira de cientificistas ortodoxos. Como a psicanálise responde a essas críticas? E por que ela deve ser considerada uma ciência?
Freud oscilou, hesitou muito entre o status de ciência, no sentido de ciência dura - ele queria no fundo que a psicanálise fosse uma "neurologia da alma" - e um outro status, que ele não chamava filosofia, mas ainda assim estava do lado da especulação, da literatura e da filosofia. Ele renunciou completamente e muito cedo ao status de ciência dura, porque se deu conta de que não se tratava de uma ciência no sentido que se conhece. Logo, é preciso inscrever a psicanálise no registro das ciências humanas. É uma ciência, no sentido da racionalidade, mas não no mesmo sentido da biologia e da neurologia. Freud se dividia entre as duas concepções. Não estamos mais no tempo do darwinismo, e a biologia é reconhecida como uma ciência, uma ciência da natureza. A psicanálise não o é de modo algum. Não tem metodologia, resultados ou a positividade das ciências duras. É uma ciência mais próxima das Humanas, como a Antropologia, a Sociologia, a História. Mas mesmo essa concepção, a de parte das ciências humanas, já foi contestada.

O pensamento de Freud é íntegro e poderoso ainda hoje? Sua força criativa ainda é existe?
Sem dúvida. Creio que vamos assistir a um grande retorno a dois pensadores, inclusive: Marx e Freud. Não ao comunismo e à psicanálise, mas a Marx e Freud. Autores como Marx, Freud, Nietzsche e toda a filosofia da rebelião se tornaram malditos nos últimos 20, 30 anos, quando caímos em um estado de neoconservadorismo. A crise econômica, em especial como a que se passou nos Estados Unidos, vai desempenhar um papel considerável. Vamos voltar ao pensamento da rebelião.

Como as ideias de Freud retornarão? Com que aplicação?
Retornarão com as de Marx. Mas não sei como serão aplicadas. O que está voltando com muita força é a ideia de que temos um inconsciente, de que o desejo é capital. A psicanálise, bem pensada, permite compreender a moeurs, o inconsciente, o desejo e a sexualidade de uma forma inteligente. É uma teoria do desejo, afinal.

A senhora vê conceitos de Freud confirmados pelos progressos da ciência ou por novas tecnologias?
Não. Os progressos da ciência são os progressos da ciência. Nenhum dos conceitos de Freud é confirmado pela biologia. São dois domínios diferentes. A psicanálise é a medicina da alma. É especial.

Assim como a psiquiatria, em sua origem?
Hoje não há mais psiquiatria. E, logo, nos damos conta de que existem cada vez mais loucos. Porque são usados apenas medicamentos, ela não funciona mais. É útil, mas não resolve. É muito interessante o que se passou na psiquiatria. Biologizaram-na. Até então, era um equivalente da psicanálise. Era uma medicina da alma. Mas a deslocaram para a biologia. Curamos a loucura? Não. Acalmamos os loucos? Sim. Vivemos um recuo de 50 anos com a psiquiatria "biologizada".

A obra de Freud é marcada por sua didática, sua clareza. E esse não me parece ser o caso dos pensadores da psicanálise contemporânea. De onde vem esse problema de comunicação?
Esse problema é enorme. Os psicanalistas escrevem em clichês. Mesmo que Lacan seja um autor difícil de ler, não se trata de um clichê. Além disso, mesmo que os seguidores de Lacan escrevam em secto, os freudianos também o fazem. Freud era um autor claro, o que influenciou todo o movimento psicanalítico. Hoje, quando leio psicanalistas freudianos norte-americanos ou ingleses fico impressionada com os clichês que estão presentes. É um símbolo muito grave de encerramento sectário. Quando os intelectuais se fecham em torno de si mesmos, eles falam a linguagem de uma tribo. No interior, a tribo se compreende. Eu sempre compreendi a tribo, mas não posso escrever como ela. Não sei fazer. Sou muito clara. Às vezes os antropólogos e sociólogos que queriam se divertir me perguntavam se eu, como psicanalista, não me sentia como o antropólogo que chega à Melanésia e que deve decifrar a linguagem da tribo. É uma alegoria exata. Eu decifro facilmente essa linguagem. Mas para você, que a lê, não deve ser fácil. A psicanálise é mais afetada pelos clichês que a filosofia, por exemplo.

O meu ponto é: se o problema da clareza da comunicação existe, o que torna a psicanálise tão popular em todo o mundo?
Ela é popular em todo o mundo, mas o é de uma forma inconveniente. Por exemplo, ela é popular em muitos países, infelizmente, pela forma da psicologia interpretativa dos chefes de Estado. Eu recuso todos os pedidos de entrevista sobre as fantasias dos chefes de Estado. Mas isso a TV adora, sob a forma da psicologia. Todos os antifreudianos, todos os que não gostam da psicanálise, dirão que ela está em todo lugar. Sim, os psicanalistas estão em todo lugar, mas sob que formas! É ridículo!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Princípios técnicos e éticos na atuação no psicólogo


Essa é uma síntese, feita por mim, das principais orientações do código de ética do psicólogo e das sugestões propostas pela Associação Portuguesa de Psicoterapia Centrada na Pessoa e de Counselling.

Não se trata de um documento oficial, mas resolvi colocar nesse espaço por representarem, para mim, mais que uma lista de princípios. São antes os valores que eu assumo e me proponho a praticar em minha atuação como psicóloga.

O psicólogo alicerça as suas atividades profissionais no respeito absoluto pela dignidade e pelos direitos da pessoa humana.
O psicólogo reconhece e aceita as diferenças entre pessoas sem qualquer discriminação baseada no sexo, idade, nacionalidade, raça e etnia, situação sócio-econômica, educação, condição de saúde, credo, opções políticas ou morais, estado civil ou orientação sexual.
Com o seu trabalho, o psicólogo busca criar condições para o desenvolvimento do potencial humano existente em cada pessoa, em direção a uma crescente autonomia e a modos de vida mais satisfatórios e realizadores.
O psicólogo sabe que a relação terapêutica é, pela sua própria natureza, confidencial. A obrigação de guardar segredo recai sobre toda a informação pessoal acerca de um paciente e das suas circunstâncias de vida.
O psicólogo, quando utiliza dados confidenciais em publicações, intervenções públicas, investigação ou situações de ensino-aprendizagem, mantêm o anonimato dos seus pacientes, camuflando as informações pessoais.
O psicólogo garante, pelos meios ao seu alcance, a reserva dos registros e arquivos com informações confidenciais sobre os seus pacientes.
No trabalho com grupos ou famílias, o psicólogo apresenta o sigilo como responsabilidade de todos os participantes. O psicólogo mantém confidencial a informação que possuir particularmente sobre os membros desses grupos.
O psicólogo, ao realizar provas ou testes de avaliação, respeita o direito de informação do paciente, explicando-lhe detalhadamente os objetivos e os resultados, interpretações, conclusões e respectivas fundamentações. Em toda a informação transmitida ao paciente, o psicólogo utiliza uma linguagem que este possa compreender e disponibiliza-se para prestar todos os esclarecimentos que o paciente julgar necessários.
Quando os testes são efetuados a pedido de terceiros, o psicólogo informa o sujeito da avaliação, das conclusões e dos conteúdos do seu relatório. No relatório são incluídas apenas informações pertinentes aos objetivos que conduziram à realização dos testes.
O psicólogo, ao iniciar o relacionamento profissional com um paciente, informa-o das suas qualificações e métodos de trabalho, dos honorários e formas de pagamento. Utilizando uma linguagem clara, confirma que o paciente compreendeu integralmente as informações, de modo a que possa exercer o seu direito de consentimento informado.
Trabalhando com pessoas incapazes de dar um consentimento informado ou com menores, o psicólogo obtém o consentimento do representante legal desses pacientes e atua sempre no sentido de salvaguardar o melhor interesse destes.
Tendo conhecimento de que o paciente ou o potencial paciente já tem um outro acompanhamento profissional semelhante, o psicólogo clarifica cuidadosamente a situação, minimizando o risco de conflito e confusão. Sem perder de vista o bem estar do paciente, pode, ainda, pedir-lhe autorização para falar com o outro profissional.
Em caso algum, o psicólogo alicia para os seus serviços alguém que já seja paciente de um outro profissional.
O psicólogo termina uma relação profissional quando o paciente já não está claramente a se beneficiar dela.
Se o psicólogo não possuir as condições pessoais ou contextuais para iniciar ou continuar a manter uma relação profissional com um paciente, assegura o seu acompanhamento por um colega, salvaguardando o direito de assistência do paciente.
O psicólogo mantém com os seus pacientes um relacionamento estritamente profissional. Consciente do grande poder de influência que a sua profissão proporciona, não explora nem alimenta a dependência dos seus pacientes e evita as relações que possam prejudicar o seu discernimento e intervenção profissional. Em particular, recusa qualquer forma de intimidade sexual com os seus pacientes ou atitudes que influenciem os valores pessoais destes.
O psicólogo só presta serviços para os quais tenha recebido formação adequada.
Sendo da sua singular responsabilidade a manutenção dos mais altos padrões de competência e desempenho profissional, o psicólogo mantém atualizados os seus conhecimentos científicos e técnicos relacionados com os serviços que disponibiliza. Quando as circunstâncias profissionais o exigem, o psicólogo procura conhecimentos, conselho e treino com pessoas ou grupos específicos.
O psicólogo não esquece que, para manter o mais alto nível de desempenho profissional, precisa investir de forma contínua no seu desenvolvimento, como pessoa e profissional.
Sensível aos valores da comunidade em que está inserido, o psicólogo conduz o seu comportamento pessoal com grande prudência para que não tenha consequências negativas no desempenho profissional e na credibilidade dos colegas e da sua profissão.
O psicólogo deve procurar manter com os seus colegas e demais profissionais relações caracterizadas pelo respeito, confiança, lealdade e colaboração. A solidariedade profissional, compromisso essencial de todo psicólogo, é dedicada à promoção dos melhores interesses dos pacientes.
Em quaisquer relações com outros profissionais, o psicólogo trabalha exclusivamente na esfera da sua competência, reconhecendo as áreas específicas e independentes das outras profissões.
Mesmo quando não existem relações formais com profissionais de outras áreas, o psicólogo, quando necessário, tudo faz para que sejam assegurados outros serviços profissionais de que os seus pacientes necessitam.
O psicólogo tem em grande apreço o apoio e incentivo aos colegas mais novos e com menos experiência, aceitando facilitar a sua inserção e desenvolvimento profissional.
No exercício da sua profissão, o psicólogo é totalmente responsável pelos seus atos e trabalha sem qualquer subordinação técnica à profissionais de outras áreas.
O Psicólogo, ao anunciar publicamente os seus serviços, utiliza linguagem descritiva, rigorosa e objetiva, e nunca valorativa, mesmo que seja necessário utilizar termos correntes, de modo que os potenciais pacientes possam optar com liberdade, lucidez e responsabilidade.
O psicólogo procura evitar que terceiros, de forma direta ou indireta, promovam publicidade em seu favor que atente contra a dignidade da sua profissão ou infrinja as normas de seu código de ética.

Psicóloga
Ana Lúcia Pereira
CRP: 06/62140

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Estudo com crianças de 8 a 9 anos de idade compara eficácia da memorização de texto

A leitura de textos em voz alta pela própria criança é a melhor modalidade lingüística para ajudar a memorização e, conseqüentemente, a aprendizagem no início da idade escolar.
É o que sugere um estudo que avaliou estilos de linguagem que facilitam a memorização em crianças, tese de doutorado que a fonoaudióloga Zilca Rossetto de Moraes defendeu no Departamento de Otorrinolaringologia e Distúrbios da Comunicação Humana da Unifesp. Esse é um dos primeiros trabalhos do país sobre a memorização pelo reconto de uma história a partir de diferentes estilos de linguagem.
Conscientizar os professores - Segundo a pesquisadora, o objetivo do estudo é divulgar aos professores o estilo mais eficiente para a memorização, principalmente para alunos das primeiras séries do ensino fundamental. "É importante conscientizar os professores de que, segundo a disciplina, deve ser usado um estilo de linguagem diferente", diz.
A pesquisa, realizada em duas etapas, avaliou alunos da terceira série do ensino fundamental de escolas públicas e privadas de Santa Maria (RS), com idades de 8 e 9 anos.
Fases da pesquisa - Numa primeira fase, 80 crianças participaram de um teste para selecionar uma entre quatro histórias que seria usada para o estudo. A história escolhida foi "O Urubu e as Pombas", que integra uma bateria de testes neuropsicológicos infantis. Na segunda parte, Zilca aplicou essa história a outras 80 crianças, divididas em quatro grupos de 20, usando em cada um deles um estilo diferente de linguagem.
No primeiro grupo, a história era lida em voz alta pela criança. No segundo, o aluno lia em silêncio. Em outro estilo, a pesquisadora lia a história para as crianças. E, no último, Zilca contava a história sem ler. Em todos os casos, as crianças tinham de recontar a história, para mostrar a capacidade de memorização.
Os resultados do estudo apontaram que os estilos mais eficientes foram a leitura em voz alta e a silenciosa, ambas feitas pela criança.
Na leitura em voz alta feita pela criança, os alunos lembravam em média 6,85 orações das 14 que compunham a história. Quando a criança lia em silêncio, ela era capaz de lembrar 6,03 orações.
Melhor desempenho - Segundo Zilca, que é professora do Departamento de Otorrinofonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Maria (RS), o melhor desempenho no caso da leitura pelo próprio aluno em voz alta decorre do fato de, além de haver o estímulo visual, ocorrer a utilização do estímulo auditivo, que reforça os processos de integração e evocação do texto lido.
O pior desempenho ocorreu quando a pesquisadora lia a história para os alunos: as crianças recordavam apenas 3,61 orações. "Embora esse último não favoreça a memorização, ele é muito usado nas escolas", afirma Zilca.
Na opinião da fonoaudióloga, os resultados são importantes porque mostram que a adoção de determinado estilo de linguagem poderia ajudar a reduzir a dificuldade de aprendizado e a diminuir índices de reprovação e evasão escolar.

O Urubu e as Pombas

"Um urubu ouviu dizer que na casa das pombas havia muita comida. Ele se pintou de branco e voou até a casa das pombas. As pombas acharam que ele era uma delas e deixaram ele entrar, mas ele continuou a gritar como um urubu. As pombas descobriram que ele era um urubu e o expulsaram. Ele tentou se juntar novamente aos urubus, mas estes não o reconheceram e não o aceitaram."
(História retirada da bateria de testes neuropsicológicos de Luria Nebraska, adaptada e traduzida para o português)

"Era um urubu e daí ele entrou na casa. Ele era um urubu e daí expulsaram ele. Daí ele se juntou com os outros urubu e os outros urubu não reconheceram e não quiseram ficá com ele."
Versão de quem ouviu a leitura da história

"Tinha um urubu, ele foi lá, que tinha comida das pomba, ele foi lá. Aí as pomba pensaram que ele era uma pomba também e daí elas deixaram ele entrá. Aí depois, depois que elas descobriram e deram comida delas pra ele também. Depois que elas descobriram que ele era um urubu, daí elas não quiseram mais ele. Daí depois ele tentou entrá na casa dos urubu de novo e ninguém quis ele..."
Versão de quem fez leitura silenciosa
"O urubu, ele ouviu dizê que as pombas tinham muita comida na casa delas e daí ele se pintou de branco e voou prá lá. As pombas pensaram que ele era um urubu. Elas pensaram que era uma pomba e daí as pombas aceitaram. Daí ele continuou a gritar como um urubu, daí as pombas descobriram. Daí expulsaram e ele tentou voltar aos urubu e não reconheceram e não aceitaram."

História recontada por criança que leu texto em voz alta
Ricardo Zorzetto www.unifesp.br

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

SEMANA DA PSICOLOGIA UFSC

oi galeraa...td bem? qto tempo...to com saudades de tds vcs.
Então, vai ter na UFSC a semana da psicologia, que na verdade são 3 dias, mas é semana.. hehe
vai acontecer nos dias 26, 27 e 28/08 no CED, na UFSC. Começa as 9 am e vai até final de tarde. São várias exposiçõs e debates sobre o que está sendo criado e pesquisado na ufsc sobre psic.
Estão todos convidadíssimos, eu vou estar lá os 3 dias, qualquer duvida mandem e-mail, recado no orkut ou qualquer outra coisa.
bjaoooo

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

GRUPOS DE ESTUDO


GRUPO DE ESTUDO DE BION
Formado por sócios do Cepsc, em andamento desde 2004, visa estudar em grupo ou individualmente textos da obra do autor, periodicamente ocorre um encontro coordenado por um psicanalista convidado membro da SPPA, objetivando a integração dos conhecimentos.


GRUPO DE ESTUDO WINNICOTT
Formado por sócios do Cepsc, visa estudar em grupo ou individualmente textos da obra do autor. O grupo tem encontros quinzenais na sede do Cepsc, semestralmente há um encontro coordenado por um psicanalista convidado, membro da SPPA, objetivando a integração dos conhecimentos


GRUPO DE ESTUDOS PSICANÁLISE E CULTURA
Este grupo de estudos tem o intuito de estudar temas relativos a cultura geral, temas que sem dúvida permeiam a atividade de um psicoterapeuta. É um exercício do "pensar psicanalítico" sobre a cultura geral. O primeiro tema a ser estudado é do sociólogo polonês Zygmunt Bauman e a obra Amor Líquido, sobre a fragilidade dos laços humanos. Posteriomente, há a intenção deste grupo estudar os Mitos.


GRUPOde DISCUSSÃO DE CASO CLÍNICO
Este grupo é formado por profissionais do CEPSC que reúnem-se para a discussão de casos clínicos , sendo esta uma rica oportunidade de estudo e troca entre os profissionais.



GRUPOS DE ESTUDOS NOÇÕES BÁSICAS DA TEORIA PSICANALÍTICA/p>
Os grupos de estudos para estudantes tem sido uma atividade do CEPSC desde a sua fundação e têm por objetivo introduzir aos estudantes o estudo da teoria psicanalítica.
As Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise constituem um texto privilegiado para quem quer travar conhecimento desta disciplina, uma vez que foram inicialmente proferidas pelo fundador da Psicanálise na Universidade de Viena, nos anos de 1915 a 1917. Com a finalidade de divulgar os princípios da nova disciplina, Freud fez uma série de vinte e oito conferências. Nos propomos a estudar oito delas, que consideramos, trazem os pontos mais centrais para um primeiro contato com esta teoria

CEPSC - FPOLIS/SC telefone:(48) 3223-6422






31/07/2009 - Grupo de Estudos Noções Básicas da Teoria Psicanalítica

No dia 12 de Agosto próximo iniciará mais um Grupo de Estudos Noções Básicas da Teoria Psicanalítica. As Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise constituem um texto privilegiado para quem quer travar conhecimento desta disciplina, uma vez que foram inicialmente proferidas pelo fundador da Psicanálise na Universidade de Viena, nos anos de 1915 a 1917. Com a finalidade de divulgar os princípios da nova disciplina, Freud fez uma série de vinte e oito conferências. Nos propomos a estudar oito delas, que consideramos, trazem os pontos mais centrais para um primeiro contato com esta teoria.

CEPSC - FPOLIS/SC telefone:(48) 3223-6422

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Oficinas de discussão e trabalho vivencial - GRATUITO

Não obstante ficar cunhado pelo emprego psicológico estabelecido pela Gestalttheorie, o termo 'gestalt' é um significante muito mais amplo, presente em múltiplos discursos e práticas.
Trazido à tona por Franz Brentano para significar o todo espontâneo que, de maneira não consciente, orienta nosso comportamento, o termo 'gestalt' recebeu múltiplos tratamentos: na tradição fenomenológica e nas escolas psicológicas nela inspiradas, na tradição psicanalítica, nas diversas poéticas contemporâneas e na experiência clínica.
Discutir e ampliar o destino do significante 'gestalt' em nossa cultura é o propósito deste projeto que nós, do Instituto Muller-Granzotto de Psicologia Clínica Gestáltica, inauguramos em Santa Catarina.

DIA 23 DE AGOSTO

TRILHAS GESTÁLTICAS: Canto do Araças à Costa da Lagoa
Com: Dennis Meneses
Ponto de encontro:
8:00h - Instituto Müller-Granzotto
9:00h - TILAG - Terminal de Integração da Lagoa
trilhasgestalticas.blogspot.com

DIA 25 DE AGOSTO

O ESPELHO DO ESPELHO: OFICINA DE TEATRO
Com Diogo de Oliveira Boccardi - Psicólogo e teatro-educador
Horário: 19:00h
Local: Instituto Müller-Granzotto

DIA 26 DE AGOSTO

FENOMENOLOGIA, MÚSICA E GESTALT
Com Alberto Heller - Pianista e compositor, Doutor em Literatura, autor dos livros "Fenomenologia da expressão musical" e "John Cage e a poética do silêncio"
Horário: 19:00h
Local: Instituto Müller-Granzotto



Próximos temas:

CINEMA E GESTALT
ARTES PLÁSTICAS E GESTALT
ARTETERAPIA E GESTALT
LITERATURA E GESTALT
FILOSOFIA E GESTALT
ESPORTE E GESTALT
FOTOGRAFIA E GESTALT
PSICANÁLISE E GESTALT
HUMANISMO E GESTALT

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Seminários abertos da Maiêutica Florianópolis – Instituição Psicanalítica


“Acerca do Pai”
Apresentado por Tânia Mascarello
Coordenação: Alberto P. May

Este seminário propõe um breve percurso por alguns momentos da obra de Lacan que apresentam a temática do Pai em Psicanálise. Na leitura lacaniana do Édipo freudiano, este advém, por um lado, como mito, e por outro se delineiam funções. A partir dai surgem as elaborações de Lacan sobre função paterna e o Nome-do-Pai, concebido em relação a uma operação denominada metáfora paterna. Sobre essa questão são mais conhecidas as vicissitudes em torno aos três tempos do èdipo que levam à metaforização e menos conhecidos os impasses que sua produção acarreta. Para trabalhar esses impasses, nos serviremos de outro momento das proposições lacanianas, localizadas no período final de seu ensino, que preconizam as suplências do Nome-do Pai.


Dia: 07 de agosto de 2009
Horas: 19:30h.
Local: Maiêutica Florianópolis
Rua Felipe Schmidt 321 - sala 901 - Centro - Florianópolis - SC
e-mail:
maieuticafpolis@floripa.com.br -
http://www.maieutica.com.br
Fone: (48) 3225 4678

Atividade aberta e gratuita
Maiores Informações:
Maiêutica Florianópolis - Instituição Psicanalítica
Rua Felipe Schmidt 321 - sala 901/902 - Centro - Florianópolis - SC
e-mail:
maieuticafpolis@floripa.com.br
http://www.maieutica.com.br
Fone: (48) 3225 4678 - 14:30 as 19:30h.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

WORKSHOP
VOCÊ SABE “FAZER”DINHEIRO?


Através da Abordagem Sistêmica trabalharemos a sua relação com o dinheiro, os padrões e crenças que influenciam os diversos aspectos da sua vida, a fim de tornar essa relação mais equilibrada.
Com este workshop você irá:
Compreender e vivenciar as ligações entre dinheiro e emoções, bem como a importância e amplitude que o dinheiro provoca na carreira e em todos os relacionamentos de vida.
Identificar no seu padrão familiar a sua relação com o dinheiro;
Identificar suas crenças relacionadas ao dinheiro;
Identificar e desbloquear as questões ligadas a dinheiro e finanças em todas as áreas da vida: pessoal, familiar, profissional, afetiva.
Avaliar seu próprio CAPITAL HUMANO como maior bem PESSOAL e PROFISSIONAL.
Desenvolver novas aptidões
Integrar o físico e material às emoções, desenvolvendo os TALENTOS
Elaborar novas metas que propiciem o seu SUCESSO
Metodologia:
O Workshop se realizará em 2 módulos, através de vivencias práticas e exposição teórica. O trabalho em grupo propicia um alargamento de visão, assim como estimula a cada um a acessar a sua própria história.

Abordagem:
Utilizaremos a Abordagem Sistêmica como base do nosso trabalho, além de exercícios e vivencias psicodramáticas. Conhecimentos multidisciplinares serão utilizados: Psicologia, Economia, Cibernética, Psicodrama, Psicologia Breve, Hipnoterapia.

DATA: Dias 20 e 27 de Agosto de 2009
HORARIO: 19:00h às 22:00h
LOCAL: Espaço Famille - Av. Rio Branco 404-Ed Planel Towers-Torre II-Sala 1101-Centro-Florianópolis
INVESTIMENTO: 100,00 (2 Encontros)
PÚBLICO ALVO: Psicólogos, Professores, Profissionais Liberais, Líderes de Equipes, Coordenadores, Empresários e todos aqueles que desejam compreender mais à respeito do dinheiro, do seu singular significado e conseqüências práticas para a vida futura.
INFORMAÇOES E INSCRIÇOES:(48) 3223-0944/9626 5401 /jackiekauffman@hotmail.com

Facilitadoras:
Luciane Altenburg - CRP 12/03326- Psicóloga -Terapeuta Familiar Sistêmica– Hipnoterapeuta- Psicoterapeuta Breve Analítica –Consultora Clinica Organizacional
Jacqueline Kauffman - CRP 12/06932- Psicóloga- Terapeuta Familiar Sistêmica –Psicodramatista Terapêutica e Sócio Educacional-Consultora Clínica Organizacional
Jackie Kauffman

terça-feira, 28 de julho de 2009

XV Ciclo de Cinema e Psicanálise


Filme: Juno
Debatedoras:
Maria Inês Gasperini - Médica e Educadora Sexual
Ana Paula Casagrande Darós - Psicóloga Clínica e Associada do CEPSC
Data: 29 de julho de 2009
Local: Auditório do Ed. Casa do Barão, Av. Othon Gama Deça, 900
Horário: 18h30min: Exibição do Filme
20h30min: Início do Debate
Entrada Franca

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pesquisitices

Artigo de Jorge Forbes publicado na revista WELCOME Congonhas, abril de 2009 - ano 2 - número 24

A mania de pesquisa que assola o mundo gera falsa segurança e cria nova doença

É preocupante escutar em um congresso recentemente patrocinado pela principal universidade da América Latina, a USP, um bem apresentado pesquisador das neurociências dizer algo mais ou menos assim: -“Finalmente a ciência vai trazer as respostas ao mundo sobre as quais filósofos nunca conseguiram se entender, a saber: onde se localiza no cérebro o amor, a inveja, o ciúme, o gosto, e, em decorrência, poder intervir farmacologicamente sobre eles, trazendo o alívio que a Filosofia e a Psicanálise nunca foram capazes de oferecer, apesar do tempo que a ciência lhes deixou para tanto”. As mil e duzentas pessoas ali presentes, a maioria jovens recém formados nas áreas biológicas, acharam tudo natural, da mesma forma que Vinícius dizia que acabamos por achar Herodes natural.
Um médico, diretor de pesquisas de um laboratório farmacêutico, ao ouvir essa boa nova, animadíssimo deixou escapar: - “É isso mesmo, nós, por exemplo, em pouco tempo estaremos prontos para lançar um remédio específico para o Id”. Foi apartado simpaticamente por um psicanalista que lhe propôs batizar o novo medicamento de “Idi-ota”, na certeza do seu sucesso.
Estudos dessa espécie, se assim merecem ser chamados, pululam em reconhecidos centros de pesquisa do mundo ocidental, generosamente pagos por agências governamentais de fomento à pesquisa. É o povo pagando pelo velho sonho da felicidade encapsulada e recebendo de presente o pesadelo reducionista do apagamento da subjetividade humana.
A epidemia dessas pesquisas esquisitas, que de tantas já merecem um diagnóstico, proponho: PESQUISITICES, se explica pelo desbussolamento humano na era da globalização. No mundo anterior - chamado de moderno, ou industrial - o laço social, ou seja, os modos de comportamento das pessoas, era gerenciado por padrões verticais de identidade: na família, o pai; no trabalho, o chefe; na sociedade civil, a pátria. No mundo atual, a ligação entre as pessoas se horizontalizou; os padrões não são mais unitários, mas múltiplos, o que aumenta muito a responsabilidade de cada um frente às suas escolhas. E isso angustia, daí a ânsia de que algum estudo empírico restabeleça a ordem vertical perdida e assegure o sucesso a quem disciplinadamente seguir o que lhe for prescrito “cientificamente”.
Pesquisar, no sentido de certas pesquisas empíricas, quer dizer encontrar a cifra que represente cada uma das experiências que se quer estudar. Nesse caso, só se pode pesquisar o que for passível de ser filtrado pela palavra. Parte-se necessariamente do princípio de que tudo pode ser nomeado, e aí reside o engano. O mais essencial da experiência humana não tem nome, nem nunca terá, o que explica a característica básica dos homens: a criatividade. É paradoxalmente obscurantista a ciência que não vê o invisível do desejo; acaba promovendo o ridículo em nome de uma segurança enganosa.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Michael Jackson


Avesso do Avesso


Foi no momento da esperança que Michael Jackson morreu: foi quando o mundo inteiro esperava seu retorno na velha Londres. Ele quebrou as tradicionais bancas de apostas que se dividiam entre o sucesso estrondoso ou o aplauso de consolação; nem um nem outro, a cada qual agora de decidir, em seu próprio sonho, como foi o último show.Não perguntem a um psicanalista sobre as doenças psíquicas do menino de Ben. Primeiro porque não se diagnostica à distância, segundo, e mais importante, porque a genialidade de Michael Jackson não cabe em nenhum enquadramento psicopatológico. Michael Jackson não foi o maravilhoso artista porque sofria, mas por ter sabido em sua arte ser maior que o sofrimento que deixava transparecer e que lhe causou tantos problemas. Seria muito reducionista pedir o aval freudiano à historinha pronta a ser acreditada: filho caçula de um pai tirânico, tendo sua infância roubada por uma imposição de trabalho e sucesso, o moço não teria outra opção na vida adulta se não recuperar, em parques de diversões fora de data e em compras compulsivas, a alegria infantil um dia proibida. Por favor, não! Essa história pode explicar muita gente, mas não faz um Michael Jackson. Nenhum diagnóstico que colemos a Michael Jackson explicará a química de alguém que fez o mundo andar na Lua. Suportemos o silêncio de sua morte e de seu sofrimento. Sua música e seus gestos é o que ele nos deixa eternamente.


Jorge Forbes (psicanalista) São Paulo, 25 de junho de 2009


quinta-feira, 25 de junho de 2009

Bullying: do conto infantil à tragédia social


Para investigar uma das modalidades de violência que mais cresce e ameaça crianças em todo o mundo, a convulsão social bullying, o Conexão Professor entrevistou a Professora Tania Zagury, que, além de tratar o fenômeno em seu acervo literário, é também filósofa e mestre em Educação. Autora de, entre outros, Limites sem Trauma, Educar sem Culpa e Encurtando a Adolescência, Tania procura alarmar familiares e pedagogos para a emergência na detecção e no tratamento do problema. Confira aqui a entrevista:

Conexão Professor (CP) - Que contexto potencializa o bullying?
Tania Zagury - Ambientes altamente competitivos; sociedades individualistas que desprestigiam a racionalidade, o saber e os valores humanos; famílias onde a injustiça, as agressões físicas ou nas quais a tônica é a falta de autoridade dos pais são fatores que, conjugados, favorecem o aparecimento do fenômeno. O bullying compreende todo o tipo de agressões , intencionais, repetidas e sem motivo aparente, que um grupo de alunos adota contra um ou vários colegas, em situação desigual de poder, causando intimidação, medo e danos à vítima. Pode apresentar-se sob várias formas, desde uma simples "gozação" ou apelido (sempre depreciativo), passando por exclusão do grupo, isolamento, assédio e humilhações, até agressões físicas como chutes, empurrões e pancadas. Pode incluir também roubo ou destruição de objetos pessoais. Portanto, uma briga entre dois alunos, no pátio da escola ou na hora da saída, não caracteriza bullying, que ocorre sempre numa situação em que a vítima está em desvantagem física e/ou emocional. É importante esclarecer que não é fenômeno novo, embora atualmente venha se tornando mais violento e, em alguns casos, acabando de forma trágica, dada a facilidade de aquisição de armas e à exposição excessiva e enfática que a mídia dá a casos semelhantes, especialmente quando envolve indivíduos com forte labilidade emocional.

CP - É possível traçar o perfil de um potencial agressor e de um potencial agredido?
Tania Zagury - Em geral, os agressores são pessoas com pequeno grau de empatia, oriundos de famílias desestruturadas, ou que não trabalham adequadamente a questão dos limites, nas quais não há bom relacionamento afetivo ou em que a agressão física é comumente utilizada como forma de solucionar conflitos. Já as vítimas são, em geral, pessoas tímidas, sem muitos amigos, introvertidas e pouco sociáveis, com baixa capacidade de reação a esse tipo de situação. São geralmente inseguras, têm baixa auto-estima e pouca esperança de conseguir ajuda por parte de colegas ou dos adultos responsáveis por elas. É bom ressaltar, porém, que, em se tratando do ser humano, nem sempre as coisas ocorrem de forma tão linear, nem são totalmente precisas.

CP - Como detectar e tratar o distúrbio?
Tania Zagury - A detecção é difícil, porque o bullying é sempre praticado de forma dissimulada, em locais em que seja difícil a visualização do que está ocorrendo ou em momentos em que os adultos não estão presentes ou se distraem momentaneamente. Portanto, o que de melhor se pode fazer é criar redes de proteção aos que presenciam ou sofrem tais agressões, de forma que se sintam seguros para denunciar o fato sem se sentir em risco, ou seja: é preciso trabalhar preventivamente, criando redes de proteção para estimular e reforçar a possibilidade de denúncia. Trabalhar de forma a deixar claro para toda a comunidade que haverá sanção aos agressores intimida bastante e costuma diminuir o percentual de ocorrências, enquanto que a impunidade, pelo contrário, estimula e faz aumentar a incidência.

CP - Quem deve estar atento e pode ajudar?
Tania Zagury - Quanto mais se estuda o assunto, mais claro fica que, tanto os educadores nas escolas quanto a família devem agir de forma proativa e assertiva. A intervenção dos adultos e a atenção ao problema devem ser estimuladas em todos os níveis. De preferência, criar e divulgar os mecanismos disponíveis para que as vítimas potenciais e os expectadores (são os que já presenciaram casos de violência contra colegas) sintam-se fortalecidos e estimulados a apontar os agressores.

Conexão Professor (CP) - O que explica o maior ou o menor número de casos dentro de uma instituição escolar? Onde mais o distúrbio pode se manifestar?
Tania Zagury - Quanto maior a certeza de impunidade, maior a freqüência de ocorrências. O problema é mais freqüente nas escolas, mas pode ocorrer também em clubes, condomínios ou quaisquer outros locais freqüentados com certa regularidade por crianças e adolescentes, de forma tal que permita os grupos se formarem e as vítimas potenciais serem detectadas pelos agressores.

CP - Que comprometimentos emocionais a criança pode desenvolver a partir do bullying? De que forma o distúrbio interfere na construção psicológica dos envolvidos?
Tania Zagury - A longo prazo, o bullying - se não combatido de forma eficaz - pode levar à sensação de impunidade e, conseqüentemente, a atos anti-sociais, dificuldades afetivas, delinqüência e crimes graves. Pode também levar a atitudes agressivas no trabalho, na escola ou na família. De repente, aparentemente sem causa específica, um jovem entra numa escola, matando e ferindo. Não estou afirmando que o bullying é sempre ou unicamente a causa ou a origem dos assassinatos em massa cometidos por jovens, mas parece haver ligação entre os dois em vários casos - o que torna essencial tomarmos em nossas mãos a prevenção do problema. Mesmo não chegando a extremos como este, a violência gratuita e covarde precisa e deve ser combatida com firmeza.

CP - Que tipos de discriminação levam à violência entre as crianças?
Tania Zagury - Tudo e nada ao mesmo tempo: qualquer diferença individual ou social pode ser motivo de perseguição. Por exemplo, uma criança gordinha ou muito baixa; mais escura ou muito clara; sardenta ou ruiva; mais alta do que a média; dentuça ou a quem faltem dentes... Enfim, aquelas que se diferenciam da média. Pode ser também o mais bonito, o mais "paquerado"; o que tem mais roupas ou é admirado pelos professores, o que só tem notas altas. O bullying é mais freqüente entre meninos; entre as meninas assume forma diferente: em geral, a exclusão ou a maledicência são as armas mais comuns.

CP - Que medidas devem ser adotadas diagnosticado o distúrbio?
Tania Zagury - Nas escolas, sugiro algumas medidas importantes:
- Treinamento para instrumentalizar todos os que lidam com alunos, no sentido de estarem atentos e aptos a perceber tentativas de intimidação ou agressão entre estudantes. Para tanto, é preciso conhecer sinais, perceber sintomas e atitudes que caracterizam vítimas e agressores;- Segurança e clareza do corpo técnico sobre medidas para intervir adequadamente;- Assegurar, através de exposição clara nas turmas, que tanto vítimas como expectadores terão sempre a proteção e o anonimato garantidos;- Implantar um esquema institucional de responsabilização para os agressores, de preferência não excludente, mas no qual agressores arcarão com as conseqüências de seus atos.- Procurar revestir as sanções de caráter educativo; excluir pura e simplesmente não forma consciência, nem transforma agressores em bons cidadãos.- Fortalecer os que sofrem ou presenciam o bullying, oferecendo canais de comunicação que garantam a privacidade dos que se disponham a falar;- Treinar a equipe da escola (em todos os níveis), de forma a adotar forma única e homogênea de agir nesses casos, para que todos se sintam protegidos: corpo técnico, alunos-vítimas e expectadores (só assim o silêncio se romperá);- Incorporar ao currículo medidas educacionais formadoras, a serem trabalhadas por todos os professores, independentemente da matéria, série ou grupo, dando-se especial ênfase ao desenvolvimento de habilidades sociais tais como: saber ouvir; respeitar diferenças; ter limites; saber argumentar sem discutir ou agredir; ser solidário; ter dignidade; respeitar o limite e o direito do outro etc.
Na família, por outro lado, a ação dos pais ou cuidadores deve focar:
- a questão dos limites;- a formação ética dos filhos;- a não aceitação firme do desrespeito aos mais velhos e/ou mais fracos.
Isto é, a família deve reassumir o quanto antes o seu papel de formadora de cidadãos, abandonando a postura superprotetora cega e a crença de que amar é aceitar toda e qualquer atitude dos filhos, satisfazer todos os seus desejos, não criticar o que deva ser criticado e nunca responsabilizá-los por atitudes anti-sociais.

CP - Videogames e filmes violentos podem gerar na criança a assimilação de práticas agressivas, funcionando como motores do bullying?
Tania Zagury - Estudos recentes mostram que há correlação positiva entre agressividade e número de horas que as crianças ficam em frente da tevê, assistem a filmes violentos ou jogam videogames com temática violenta. Quer dizer, quanto mais tempo e mais precocemente começam, maior probabilidade de incorporarem como naturais e aceitáveis atitudes agressivas ou violentas. Alguns estudos detectaram, inclusive, mudanças de comportamento em crianças pequenas, poucas horas depois de expostas a programas com esse tipo de conteúdo. De qualquer forma, é importante saber que nem toda brincadeira agressiva irá "obrigatoriamente" gerar atitudes de bullying, mas é importante alertar que não se pode ignorar e que nos remete, mais uma vez, à questão dos limites que, tanto pais como docentes, precisam desenvolver nas novas gerações.
janeiro/2009

Bullying - 27/04/2009

Assista ao comentário de Luiz Carlos Prates no Jornal do Almoço.

http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=60455&channel=47

sábado, 20 de junho de 2009

INFORMAÇÕES - CURSO PSICOLOGIA ESTÁCIO-SC

Matrículas Veterano (via aluno on-line)
05/07/2009 - Vencimento da taxa de rematricula
10 à 17/07/09 - Matrícula via internet (aluno on-line)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Lacan cem anos depois

O psicanalista Jorge Forbes fala sobre a importância do psicanalista francês para o pensamento moderno e explica por que o brasileiro é um otimista

No último dia 13 de abril, foi comemorado o centenário de nascimento do psicanalista francês Jacques Lacan, o homem que, a partir de Freud, reinventou a psicanálise. Mas nem todos festejaram a data. Intempestivo, polêmico, hermético e genial, Lacan arrebatou admiradores e inimigos quase na mesma proporção. Parte do primeiro time, o psicanalista Jorge Forbes, 49 anos, de São Paulo, é um dos maiores especialistas em Lacan no País. Divide com alguns poucos o mérito de introduzir a obra lacaniana no Brasil. “Sem Lacan, a psicanálise não existiria”, provoca Forbes. Nesta entrevista, o ex-presidente da Escola Brasileira de Psicanálise fala sobre a importância de Lacan para o pensamento moderno e aborda também outros temas, como angústia, depressão e um certo caráter do povo brasileiro.

ISTOÉ – Qual é o legado deixado por Jacques Lacan?
Jorge Forbes – Jacques Lacan pode ser considerado o mais importante psicanalista depois de Sigmund Freud. Sem ele, hoje não existiria a psicanálise. Ele teve a condição de continuar o cerne da descoberta freudiana, que é o de permitir a cada pessoa saber qual é a sua forma particular de desejar, de amar, sem ser obrigado a entrar nessa plastificação do mundo atual.

ISTOÉ – Por que fazer uma análise lacaniana?
Forbes – Análise lacaniana é a mais compatível com o sujeito pós-moderno. Nós estamos vivendo uma época na qual existe uma horizontalidade maior entre as pessoas – diferente da era anterior, em que tínhamos modelos piramidais de organização. O sujeito pós-moderno tem uma forma de significação que ultrapassa a ordem paterna. E foi Lacan que propôs a condução de uma análise além do Édipo, além do modelo freudiano típico e, portanto, mais compatível com o sujeito pós-moderno.

ISTOÉ – O sr. conheceu Lacan. Que impressão teve dele?
Forbes – Conheci-o com 75 anos. Era impressionante o vigor e a vontade de ir além. Dava a impressão de que não perdia um momento na vida. Era uma pessoa muito receptiva, do jeito dele. Mesmo muito famoso, bastava telefonar e ele te recebia. Qualquer ambiente em que entrasse, se fazia imediatamente notar, mesmo que não abrisse a boca. Era um analista o tempo todo.

ISTOÉ – O tempo da sessão virou o grande cavalo de batalha da psicanálise lacaniana. Algumas dessas sessões, por sinal caríssimas, duravam segundos. O que é mito e o que é verdade?
Forbes – Ah, essa é uma crítica sempre repetida. Tem até uma historiadora conhecida que afirma em artigos que Lacan teria diminuído o tempo da sessão porque tinha muita gente na sala de espera. Vejo essas declarações com certo desalento. Não basta conhecer história. É preciso conhecer psicanálise para se falar dela. O tempo de uma sessão para Lacan é fundamental, faz parte da própria análise. As decisões que uma pessoa toma têm sempre o tempo como um dado do próprio problema. Portanto, mais ou menos tempo, muda o dado e assim muda a conclusão.

ISTOÉ – Por que a análise é cara?
Forbes – As pessoas acham caro porque elas estão acostumadas a pensar o uso do dinheiro na relação custo/benefício. E é muito difícil medir quanto você investe em uma análise tendo esse termômetro. Se você vai a um médico e tem um nariz feio e ele diz “você me paga R$ 1 mil e eu o transformo”, você tem uma relação clara de custo/benefício. Quando você vai para uma análise, o termômetro não é nem padronizado nem exterior. As pessoas se embaralham. E esse embaralhamento é utilizado na análise. Portanto, tal qual o tempo, o pagamento é um fator que o profissional utiliza como instrumento terapêutico. Um dos objetivos é que cada um ponha em questão seu referencial de valor. E o dinheiro é um dos parâmetros nos quais a questão do valor caminha.

ISTOÉ – O Brasil tem uma das melhores escolas de psicanálise do mundo. O brasileiro precisa de análise?
Forbes – O brasileiro ama o seu inconsciente. Isso explica por que o Brasil é um dos países no qual a psicanálise é mais desenvolvida. Uma das qualidades do povo brasileiro é de não se levar muito a sério. Ele tem sempre uma certa desconfiança, sadia e gaiata. Essa qualidade é que o faz sensível às formações do inconsciente. A psicanálise vai mal em países totalitários. Por isso, a Alemanha nazista a baniu. Menos seriamente, sociedade na qual todos gostam do mesmo queijo não é lugar para a psicanálise.

ISTOÉ – Essa desconfiança gaiata é que faz o brasileiro encarar com bom humor certas angústias que o afligem?
Forbes – Um ditado popular diz que o brasileiro não se preocupa muito com a sua história porque amanhã ela irá se transformar em enredo de escola de samba. A identidade do brasileiro está voltada para o futuro e não para o ontem. Ele acredita no futuro. Essa qualidade minora as dificuldades que enfrenta no dia-a-dia. Quando bem usado, é um de seus tesouros.

ISTOÉ – O sr. fez referência ao homem pós-moderno. Qual é a posição dele na nova organização social?
Forbes – A globalização está provocando mudanças em homens e mulheres. Antes, as pessoas buscavam pertencer a grandes corporações ou ter profissões reconhecidas como de “doutor”: médico, engenheiro ou advogado. Hoje, não é mais isso que se espera. Não é uma honra ficar no mesmo emprego e o leque profissional é muito mais amplo. A globalização pulverizou os ideais, exigindo a cada um se defrontar com a angústia da escolha: será que você quer realmente o que deseja?

ISTOÉ – Então a globalização pode ser benéfica ao indivíduo...
Forbes – Cada pessoa tem mais chance de provar a que veio. De inovar. Ao mesmo tempo sofre mais com isso. Não há mais um caminho definido. Isso está causando uma epidemia de depressão. O homem está desbussolado. O problema é saber o que ele realmente quer. Como Freud dizia, não existe uma organização social perfeita. Quando a sociedade muda, você tem novas soluções e novos problemas. Antigamente, o jovem dizia que não tinha liberdade de escolha. Hoje, ele tem essa liberdade e se sente perdido. Por não saber o que fazer, acha que tudo o que faz é pouco. E quando chega a essa conclusão, se deprime ou se droga. Mas é bom lembrar que os próprios jovens nos indicam soluções. A música eletrônica e os esportes radicais surgem como novas formas de lidar com o mundo moderno.
fonte: